Dia Sem Compras


Postagem Aberta! by D. Graça
janeiro 19, 2010, 6:16 pm
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Carta de Luciano Pitronello, Tortuga, a sete meses de se acidentar by D. Graça
janeiro 8, 2012, 11:38 pm
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Primeira carta de Luciano Pitronello

1 de Janeiro de 2012

A 7 meses de falhar o ataque…

Carta aos corações indômitos

Difícil se faz começar a escrever quando sei que tenho muito o que comunicar e mais ainda por calar, o silêncio se fez um grande companheiro e não em vão, pois meus inimigos desejam isso, que me explane com minhas ideias, que justifique minha ação ilegal, para poder aplicar a lei antiterrorista e poder sepultar-me, inclusive na condição que me encontro, desejam este troféu de guerra, um jovem com múltiplas feridas, prisioneiro por não haver-se enganado com a comodidade de uma revolução marcada dentro do politicamente correto. O poder ambiciona com meu julgamento, que a senhora em casa diga a seu pequeno rebelde que assim terminamos xs idealistas, xs que nos atrevemos a sonhar, que nem o pense, que começa com a rebeldia própria da idade e que se não freia pode terminar em terroríficas consequências, justificar através do meu exemplo, o sistema carcerário, a repressão para o “bem de nossxs filhxs e do futuro”.

Sei que o poderoso deseja isso, ou ao menos o espera, que de uma ou outra maneira, me manifeste publicamente, por isso preferi o silêncio, penso que é muito melhor que nestes momentos falem por mim meus companheiros, conhecidos ou não, tal qual, em inumeráveis jornadas pela libertação animal, soube falar pelo que não o podia, creio que agora deve suceder o mesmo, por que sinceramente penso, que outrxs companheirxs , inclusive de diferentes partes do globo, já o fizeram com esplêndidos resultados, não só com tudo que envolve minha moral, mas com tudo que envolve a solidariedade, a qual me atreveria a representar-la como a primeira peça de uma grande fileira de dominó, aonde se empurra a primeira, e a segunda derruba a terceira e assim sucessivamente, onde minha moral viria a ser uma peça a mais do dominó, aonde está também o dano ao sistema, ao romper com suas lógicas autoritária, a estima que gera a ação, tanto a nível individual como a nível coletivo, além de ser um degrau mais no conflito com a realidade e assim poderia passar dias enumerando os distintos efeitos que poderia ter uma ação solidária.

Fora isso, tal como meus inimigos desejam que me comunique, sei que muitíssimos companheiros também o desejam, e saibam que o sei e sinto muito, por que tiveram que passar vários meses na incerteza para receber alguma notícia, lamento profundamente comunicar-me nessas circunstâncias, fui eu o que sempre enfatizou que a solidariedade deve ser recíproca, e acreditem que eu mais que ninguém lamentava não haver me pronunciado antes, senti que traía a mim mesmo ao me calar, “Lhe incomodará que nos solidarizemos com ele”?Especulava que pensavam ao interpretar meu silêncio, mas tenho uma pequena e linda filha que necessita a seu pai e tão pouco posso trair a ela. Ela me motivou ao silêncio, meus ideais me motivavam ao diálogo e vocês, meus/minha companheirxs de sempre me motivaram ao ponto do meio.

Não gosto de escrever sem pensar no que quero transmitir e que se entenda a cabalidade, escrever algo em minha situação necessita uma reflexão profunda. “Vale a pena”? Já que no meu caso, a diferença da maioria dos processos políticos que podem ser montagens, no meu processo já está provado, por que eu efetivamente portava uma bomba com destino a filial bancária localizada em Av. Vicuña Mackenna com Victória, ponto central da capital.

De minha parte desejava comunicar tudo. Por que falhou o ataque?Como poderia ser omisso a algo tão relevante? Ou inclusive: por que este banco? Politizar um ataque anticapitalista não é só fazer apologia da violência, é também botar a corda no pescoço e isso jamais!Por que enquanto estiver vivo eu planejo seguir lutando, não me importa se me faltam alguns dedos, uma mão,o ouvido ou a vista, seguirei adiante e como de lugar, isso devem saber tanto meus inimigos como meus companheiros.

Então me pedem que rompa com o isolamento, com o hermetismo que ronda minha pessoa, planteio que me envergonharia comunicar-me simplesmente por fazê-lo , ao que me responde com um golpe minha consciência:E teus companheirxs? Penso que comunicar-me com elxs é algo banal e sem importância? É verdade, não necessito vomitar todo o ocorrido essa noite, creio que no futuro já haverá tempo para isso. Então querem saber de mim?Penso que vou lutar para viver e viver para lutar até sermos livres e selvagens, não me estamparei de que sou menos selvagem se respiro de forma artificial ou não, por que creio que em situações como essa onde aflora o instinto mais selvagem do homem, o de sobreviver, não pretendo aludir a ninguém em especial, por que sei que muitxs companheirxs desejaram minha morte com os melhores desejos, mas quero que daqui saia uma lição para todxs, não se pode desejar a morte de um companheiro assim tão solto de corpo, claro, ao menos que o companheiro o manifeste, mas se fosse esse o caso, a pessoa buscaria os meios para pôr fim a sua vida, sem que com isso gere uma causa judicial a terceiros(homicídio). Por que?Que haveria ocorrido se por “fazer-me um favor “ , me houvessem assassinado? Quem são elxs que se dizem meus companheirxs para julgarem se vale a pena ou não que eu siga com vida? O único que é capaz de tomar semelhante decisão é o indivíduo, só ele sabe o que realmente deseja, e particularmente eu desejo seguir vivo para continuar lutando.

Por outra parte quero que saibam que agradeço todas e cada uma das ações solidárias que tiveram para comigo, as faixas penduradas em distintas partes do mundo ou aquelas mensagens que carregavam xs mesmxs solidárixs, chegavam aos meus ouvidos de uma ou outra maneira, cada panfleto, cada boletim contra-informativo, cada espaço de suas vidas que dedicaram a mim o guardo como um tesouro, saibam que me interei de tudo e que neste mundo não existem palavras para meus sentimentos de gratidão, por que cada bombaço, cada incêndio organizado em meu nome estão em minha mente. Jamais poderei esquecer o valente que foram meus companheiros mexicanos, xs insubordinadxs que souberam ser meus companheiros da Grécia, queria abraçar aos selvagens da bolívia e dos EUA, saudar afetuosamente aos rebeldes da Espanha e Itália, aos libertários da Argentina, ânimo! Como deixar de mencionar aos iconoclastas da Indonésia, força imãos/irmãs! Aos/as anônimxs da FLA e FLT na Rússia e no mundo. Aos/as companheirxs presxs espalhadxs pelo globo, lhes mando todo meus carinho nestas humildes letras, a companheira Tamara, presa no México(1), a Gabriel Pombo da Silva, preso na espanha, A marco Camenish, preso na Suíça, as/aos companheirxs sempre dignos da Conspiração das Células de Fogo, como invejo sua coragem e obviamente, a minhas/meus companheirxs do território controlado pelo estado do $hile, a vocês que xs conheci em pessoa, saibam que os levo em meu coração, por toda parte, jamais me separei de vocês por que xs levo em meu sorriso, sei que em uma carta jamais poderei agradecer a todas e cada uma das ações, espero que se entenda que não quero excluir a ninguém, as formas com que se solidarizaram comigo são tantas e tão diversas como a luta mesmo, desde ações ilegais, até atividades, chamadas telefônicas, mensagens por internet, canções e sons libertários, enfim quero que saibam todxs e cada um/uma de vocês, rebeldes solidárixs que este louco pela liberdade, jamais, jamais os esquecerá, souberam estar grandes como os arranha-céus e golpear aonde dói, e sobretudo fizeram brilhar as estrelas com sua entrega e isso é digno de imitar.

Gostaria que soubessem o que gerava em mim a solidariedade aqueles dias onde nada tinha sentido, onde aprender a refazer minha vida não tinha nenhuma pitada de lógica, por que saibam que estive mal, o que sucedeu a mim o desejo a muito poucas pessoas, por que foi horrível e aonde mais obscuridade havia, apareciam vocês , gestos pequenos que me empurravam a não renunciar. Como trair a aquelxs que botam suas vidas em jogo para dar-me ânimo? E aprendi a conquistar a vida de novo, sei que vocês jamais dimensionaram o importante que foram. Agora me encontro forte como nunca, a prisão longe de amedrontar-me me faz estar forte como naqueles dias, paradóxica é a vida, por que sempre disse que ter companheirxs na prisão não deveria ser motivo de amedrontamento, se não, todo o contrário, devia ser a razão da mecha na garrafa com gasolina, ou do incinerador da carga explosiva ou incendiária, do sorriso dos corações inssurrectos depois de uma jornada de ataque, assim acreditava antes e assim sigo acreditando, e agora sou eu o que se encontra prisioneiro, portanto se meus inimigos não conseguem intimidar a mim que me encontro em suas garras vejo difícil que o façam com meus companheiros.

O cárcere planejo enfrentar da mesma com que enfrentei a sociedade, com dignidade e alegria, jamais de uma forma submissa, como se falou em uma ocasião, fazer o cárcere combativo. Lhes conto que me encontro na seção hospitalária do presídio Santiago 1, aqui se vive um regime similar ao módulo de segurança máxima do presídio de alta segurança, mas sem pátio, sem rádio, sem TV, com uma visita semanal de no máximo 2 pessoas e com o risco de contagiar-te das enfermidades dos outros presos. O quarto é compartilhado e é maior que uma cela, por esses lados a chamam a cadeia dos loucos, por que aguentar por aqui por muito tempo é para ficar louco, ainda que eu sou da ideia de o que não te mata te faz mais forte e como dizem por aí: “Xs loucxs, somos os que temos os sonhos mais lindos”. Lhes conto que faço muito exercício para recuperar a musculatura que perdi, canto bastante sobretudo essas canções que não agradavam a ninguém, escrevo cartas a minha pequena todas as semanas, as vezes, se é que tenho companheiro de peça, jogo xadrez ou conversamos, de maneira geral os presos me tratam c om muito carinho e me ajudam bastante. Sigo rigorosamente meu tratamento para a reabilitação e tento dar-me ânimo eu mesmo quando a informação do exterior escasseia, lhes conto também que me propus muitos projetos, em alguns já estou trabalhando e outros são para depois que cumpra minha pena.

Penso que assim um rebelde se converte em guerreiro, quando volta a levantar-se por mais forte que

tenha sido a queda, que é capaz de ver uma realidade ainda que tenha tudo a perder, um/a guerreirx não tem que saber confeccionar uma bomba ou manipulá-la, tão pouco tem técnicas de camuflagem, isto são coisas que se aprendem por complemento, xs guerreirxs são perigosxs por suas ideias e princípios, por que vão até as últimas consequências, sempre firmes, imquebráveis, por que não traem a si mesmxs, nem a suas/seus companheirxs, por que sempre estão atentxs, por que não se deixam levar por um cahuín ou pela capucha (2), por que se tem problemas os enfrentam, se tem aflição choram, e se tem alegria riem, por que sabem transitar por uma vida plena, nem por isso tranquila, essxs são xs verdadeiros guerreirxs, agora, nesta guerra são muitas as ocasiões de gozo, mas também há momentos de amargura, pois é uma guerra, não uma moda juvenil, e enfrentar-se ao sistema de dominação utilizando a estes termos pode trazer nefastas consequências e devemos saber de antemão, por que um erro, um pequeno descuido muda tudo, sempre se disse e eu isso o tinha entendido, portanto atuei de acordo com os termos que queria utilizar. A respeito de minhas feridas cicatrizaram todas, lamentavelmente as marcas sempre ficarão, mas as porto com o mesmo orgulho que minhas tatuagens pois são a prova mais concreta de que estou convencido de meus ideiais. Como não estar? Portei esta bomba com sonhos e esperanças e isso segue intacto.

Por outro lado lamento não poder seguir aportando nos projetos que participava, entendam que para mim não havia nenhum mais valioso que outro, todos e cada um significam um aporte a guerra social e anseio que estes projetos não fiquem a deriva por que não estou, pelo contrário deve ser uma motivação mais para seguir adiante, sei que não estou livre de críticas, por que se formava parte de tantos sonhos devia ter atuado não com 100% de cuidado mas com 150%.

Estou seguro que meu exemplo fechará um capítulo mais e que xs novxs e não tão novxs combatentes saberão resgatar o positivo de tudo isso, por que a luta continua e existem demasiados corações que não cabem neste mundo autoritário e desejam abrir-se caminho, por que o fizemos no passado sabemos fazer no presente, no pessoal faço um bom balanço das lutas antiautoritárias no mundo, uma ou outra baixa, mas no geral vejo um bom prognóstico.

Mas assim como a luta avança a repressão também o fará, e meu caso será usado para reinaugurar a patética montagem Caso Bombas (3), portanto faço a sugestão a estar alertas, nunca na inação, mas com cautela, por que minha autocrítica pode aplicar-se a todxs, é a ideia de compartilhá-la , o que digo tão pouco o digo a ciência certa, talvez não tentem mais montagens por temor a fazer o ridículo de novo ou talvez se atirem a piscina, com a desculpa de que meu feito está provado, portanto o chamado é a estar bem despertxs com os 5 sentidos na rua.

Para terminar quero dedicar uma últimas linhas a essa pessoa que andava comigo na madrugada do 1º de junho. Irmão/mãzinhx, sei que meu acidente deve haver te marcado, talvez quantas noites sem dormir na incertidão da cotidianiedade.”Saberão que sou eu?Se notará?Terá despertado o dia seguinte ou terá morrido dormindo?Terá me delatado? Recordo que uma vez te disse que apesar do profundo ódio que sinto do miserável que apunhalou sua companheira(4), igual acreditava entender-lo, por que deveria estar em algo similar para ver se somos tão fortes como dizemos, por que sempre acreditei que a delação é um inimigo interno. Agora te posso dizer que com certeza esse tipinho não tem culiões! Também recordo que antes de sairmos esta noite a rua, te disse que andava sem minha cabala, algo totalmente sem sentido, algo que eu sentia que me dava sorte, tu me disseste que era um louco por acreditar nessas coisas, por sorte trazia meu outro amuleto e fiquei vivo, agora podemos rir dessas leseiras. Irmã/Irmão quero que saiba que apesar de que nem sequer imagine os mals momentos que te jogam a mente o teu coração, eu sigo sendo o mesmo Tortuguita com chulé e que dorme no chão e jamais vou ter que reprovar-te nada, por que esta noite tocou a mim, em jornadas passadas haverá tocado a ti, se algo passava a segunda pessoa foge, assim o havíamos combinado e assim tinha que ser por que ainda que muitas vezes pode ter se sentido um/a traidor/a, não o és, nesta guerra que empreendemos faltam as palavras para que nos entendam. Talvez não volte a ver-te nunca mais, se é assim, sorte em todo o que venha.

Uma vez o disse e o repito com orgulho!Nunca derrotadxs, nunca arrependidxs!Desde aqui lhes mando um caloroso abraço a gente que anda clandestina.

Com o Mauri presente na memória!

Presxs em guerra a rua!

Contra toda autoridade!

Caminhando até o Nada Criador!

Luciano Pitronello Sch.

Preso político inssureicionalista

Notas da tradução:

  1. Aqui há uma errata que, apesar de termos mantido a carta na íntegra fazemos aqui esta pequena correção, a compa Tamara está presa na Espanha pelo envio de uma carta-bomba ao diretor de uma prisão.O companheiro Gabriel Pombo da Silva, é espanhol, mas atualmente se encontra preso na Alemanha.
  2. Capucha é a gíria para definir a cara tapada, seria o capuz.
  3. O caso Bombas ou “Operacion Salamandra”, como o chama o estado é a investigação dos inumeráveis atentados com artefatos explosivos que vem sendo realizados por grupos anarquistas no território Chileno. O mesmo se configura numa grosseira e descarada montagem midiática-judicial que tem encarcerado e processado uma série de companheirxs

sem qualquer evidência concreta.

  1. Se refere a Gustavo Fuentes Aliaga, ou El Grillo como era conhecido, pilantra, caguete, X-9, delator que por tempos esteve envolvido com a movimentação anárkika, vindo posteriormente a colaborar com a polícia e a converter-se em “testemunha chave” no Caso Bombas.


Divagante: [Carta IV] Um moinho de perdição by D. Graça
dezembro 20, 2011, 8:53 pm
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parceiro meu,

não sei ainda… o que fazer pra seguir em frente. como poderei fazê-lo se derreti tantas pernas nesses caminhos? mas sempre se dá um jeito, sempre se dá. perdidão… tô perdidão. foi instigante entrar no furacão com vocês, e fico me sentindo premiado pelas produções que engatamos aí nesse fuzuê. valeu mesmo!

aqui, um puta frio dilacerante! estou me sentindo fodido à beça, mas tranquilo, de boa.

fico lembrando de você e da moça todos os dias… saí daí na surdina, porque não aguentava mais tanta invasão e tantos conflitos internos que eu mesmo causava comigo. preferi dar linha e aprofundar no deserto um pouco mais. foram dias inteiros caminhando pra frente, e isso não me facilitou muita coisa. chegar foi como aportar num moinho de gente feito de cabeça pra baixo!

o veneno está no coração do homem!

nos vemos numa dobrada qualquer, maninho. te cuida e te acalma, se preciso for.

conserve força para o que deseja.



Divagante: [Devaneio I] A beira do lago me seduz by D. Graça
dezembro 7, 2011, 5:42 am
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Na mata densa e cerrada, alguém está lá comigo? Essa selvageria que abrigo, pelo menos numa idéia romântica no meu íntimo. A falta de coragem, as questões que ressurgem sobre tudo que faço. Sentir ser farsa, respirar e tragar a mentira. Sentir não ser nada e com isso não fazer birra.

Ser selvagem é ter que ser violento, contra mim, contra tudo. Ser violento e abandonar. Ser duro e destruir… o cheiro, o gosto, a sensação do que é civilizado, pôr fim ao sentido das heranças e raízes, à tônica do amor e do ódio, para além do bem e do mal. Frieza e sossego. Abolir tudo que pode ser perda ou ganho. Fazer isso vivendo, sem pensar e seguindo, continuamente indo, sempre indo sem metas, destino, projetos, previsões, num mundo decaído, eu mundo caído em pedaços, querendo sozinho tudo e mais nada, querendo que qualquer pouco seja o suficiente.

Há um selvagem gritando em mim, e ele não é bom nem ruim. Fala pouco mas cochicha nos meus ouvidos: “Vá, vá, vá, maluco! Larga tudo e faz o que quer! Se acabe de viver, se acabe de… acabar!”.



Divagante: [Carta III] Espectro by D. Graça
dezembro 2, 2011, 9:14 pm
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Sim, eu queria ser fácil. Fácil de falar, de dormir, de conversar, de me abrir, de me fechar, de não pensar, de sair de cena, de ser pequena coisa pouca, de não ser só confusão, de sorrir, de receber, de estar em companhia. Mas tudo isso é atravanco, lesma lenta arrastando a gosma, fases que deixam rastro no pouco de mim, ainda que eu tenha todo o cuidado – de ser discreto, do papo reto. “Quantas vezes terei eu que dizer… o parco que sou, o pouco que sei?”. Eu existo sem ser nada. Gero seres sem nem perceber.

Fiquei forte, saco de pele vazio. Pele rasa, riso rasante que começa por cima do mundo, desgoverna e cai girando, calado, espiralado. Se é profundo, vai tudo pro fundo.

Quem tira proveito, tira sem querer. Fico me vendo em atos ao redor, em outros corpos, gente falando coisas que eu penso, que eu já disse (ou escrito pra mim mesmo ou numa conversa íntima), usando termos, gírias, modos-de-dizer, se posicionando no ambiente… ao meu modo, como eu faria, fazia e faço. Outra gente manifestando conturbações, “sensações ruins”. Será que estou poluindo?



Divagante: (Carta II) Morro sem pecado by D. Graça
novembro 30, 2011, 9:30 pm
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Decobri um pedaço desse lugar, que só pude conhecer de longe e no plano da imaginação. Fomos subindo e pegando trilhas, andando sem limitar muito a caminhada, sem pôr muitos contornos na serra.

Ficamos ali cercados pelos contrastes verdes e avermelhados. O verde que me insulta e me convida à selvageria que palpita num lugar escondido do meu coração, uma mescla de desejo e repulsa diante das coisas civilizadas. O vermelho ali casado, aquele mesmo velho vermelho das minerações, da terra exposta pelo sacode das escavadeiras e dinamites, vermelho de velhas bandeiras que tu e eu conhecemos. Fomos catando uma ou outra pedrinha de minério (ferro!?) que encontrávamos na superfície, e eu ficava me questionando, a-bis-ma-do, se aquilo era de fato ferro, assim, achado no chão. Depois, descemos e imergimos no cinzento de novo. Parceiro meu, nesse embalo maluco, evoco Manoel de Barros para lhe fazer ilustração de como tenho vivido, sem perceber ou premeditar algum estilo de viver: “Sou livre para o silêncio das formas e das cores“.

Fiz do mesmo jeito que costumo fazer nas minhas andanças: suave, tranqüilo – experimentando a sensação dos gigantes. E, o que mais me importa, fiz sem dever nada a ninguém.

Com saudades.



Divagante: [Carta I] Macio e leve em terras fumegantes by D. Graça
novembro 29, 2011, 8:23 am
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escolher o momento de conformação não significa estar entregue, submisso a qualquer derrota. veja você… que nunca ninguém perde nem ganha. nossos confrontos estão em nós, no fundo do íntimo… o que nos coloca em nossos lugares é justamente esse “definir”: por onde trilhar cada passo, com quem e o que fazer para a realização de nossos anseios, é essa definição que nos situa, nos diz de onde viemos e para onde vamos, nos permite atear o fogo da linha de conflito em vez de sermos carbonizados pelas chamas.

com a licença desse devaneio, quero apenas dizer que desapegar e praticar o abandono dá força ao que ainda nos resta de idéias, propostas e práticas. não, rapaz… nada acaba, temos uma ilustração ideal de um fim em tudo, mas minha vida vem me convencendo de que não, falar a respeito do encerramento de nossos ciclos não é uma tarefa tão banal e simples, creio que nunca é possível ser tão claro e seguro quanto ao que começa e o que se fecha. porém, algo me estimula muito nessas encruzilhadas filosóficas que criamos: sei que o começo e o fim me abrem um sem-número de portas e possibilidades. quando menos me apercebo de minha condição, me vejo completamente mudado, me sinto outra pessoa, vejo que revolucionei o mundo sem ter uma percepção imediata disso.

estou em pausa… tentando me perceber mais. e me acalmei daquele vendaval confuso e descarrilhado, respirei com mais leveza pra conseguir não me estrangular de tanto ser, tantas questões manhosas que me pus nessas andanças, tantas memórias que me atiçaram (lembranças que incluíam a sua presença). fico tranquilo por estar mais quieto, dando tempo aos burburinhos cacofônicos da cidade, desses antros de pouca vida, os únicos tipos de lugares onde aprendi a sobreviver. maravilhosos antros! eu resolvi agradecer ao dia, toda vez que me sinto agoniado… agradecer por ter me oferecido tantas possibilidades de que desfrutei tão pouco.

siga o melhor vento. ainda nos vemos…



Notícias da Comunidade Zilah Spósito. by D. Graça
outubro 22, 2011, 3:51 pm
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Notícias da Comunidade Zilah Spósito.

Não existia um mandado de desocupação da área onde estavam erguidas 39
casas. Havia um termo de ajustamento de postura da PBH que iria derrubar
apenas as casas que estivessem vazias.

Hoje trabalhadores da PBH foram até o local acompanhados da PM e começaram
a derrubada indiscriminada das casas. A PM, Batalhão de Choque, invadiu
casas e expulsou os moradores com spray de pimenta para homens, mulheres e
crianças.

A rede de solidariedade mobilizada as pressas pelo Grupo Pólos de
Cidadania e Brigadas Populares chegou ao local e percebeu a tramóia. Uma
ação totalmente ilegal da PBH, sem mandado de reintegração de pose, sem
aviso prévio e nenhuma garantia para as famílias, que seriam jogadas na
rua.
Diante disso o Ministério Público foi acionado e agora está fazendo a
perícia do local para a elaboração de uma representação por improbidade
administrativa contra o Prefeito Márcio Lacerda.

Das 34 casas existentes no local, sobraram 9. A mobilização agora é para
conseguir abrigar as pessoas e fazer comida. E vem chuva ai!

Um alerta importante! Existem mais 5 comunidades em BH com risco de serem
despejadas. Ao que tudo indica este foi um teste da PBH para saber como
será a repercussão na sociedade e como isso pode interferir na reeleição
do prefeito. Por tanto, peço a todos que lerem esta nota que compartilhem
com os amigos e repassem a informação para a suas listas de email.

Vamos ver amanhã como isso será noticiado, se for noticiado.
Independente da mídia corporativa precisamos nos unir e espalhar a
informação. Só um povo consciente pode lutar por seus direitos.

UM SALVE! Para toda a galera correria e disposição que chegou até lá e
impediu mais uma insensatez do Sr. Marcio Lacerda!

Somos muitos e estamos juntos!

PS: Muitas fotos foram tiradas, mas foram apagadas durante revista
policial afim de eliminar provas da ação ilegal.



Relato do Despejo na Zilah by D. Graça
outubro 22, 2011, 3:45 pm
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Galera, segue relato de pessoas da Casa da Bandeira Preta que estiveram no
despejo de ontem na ocupação Zilah Spozito.

Acordamos na Dandara, com a notícia de que estava rolando o despejo na
Zilah, que a tropa de choque estava lá e a galera pedindo ajuda.
Subimos correndo ao centro comunitário onde haviam mais pessoas da Dandara
fazendo o corre de avisar e chamar pessoas pro apoio e agilizando caronas.

Fomos em 4 carros cheios, no caminho recebemos uma ligação de lá pedindo
que fossemos rápido pois haviam começado a derrubar as casas. Chegamos lá
próximo do meio dia. Soubemos que a polícia estava lá desde as 10:30 mais
ou menos.

Ao chegarmos a comunidade já estava toda isolado com cordão policial dando
a volta toda, não havia como entrar. Havia umas centenas de policiais e
mais umas centenas de trabalhadores da prefeitura vestidos de laranja
demolindo as casas.

Muitas viaturas em todas as ruas de acesso a ocupação, trator e até uma
ambulância no aguardo. Quando chegamos uma ou outra casa já haviam sido
derrubadas e váriam outras em processo de demolição.

A comunidade fica na parte baixa de um vale e o cordão de policiais
militares cercava toda a parte de cima impedindo que qualquer pessoa
descesse. Haviam aproximadamente umas 200 pessoas entre moradores,
vizinhos, amigos e apoiadores do lado de fora do cerco, indignadas
tentando pensar alguma maneira de impedir o que estava acontecendo.

Vários moradores haviam saido de suas casas cedo pra comprar pão e quando
voltaram não podiam mais descer nem para buscar suas coisas. Pessoas
chorando, xingando, indignadas.

Demos uma volta pela área para tentar pensar alguma forma de agir em
relação a que estava acontecendo, mas a sensação era apenas de impotência,
ódio e nenhuma luz de como impedir aquele absurdo. Ouvimos dizer que não
havia ordem judicial para o despejo, ao indagar os policiais sobre isso
todos só diziam que estavam cumprindo ordens, que só o comandante sabia
disso mas que a polícia não faria isso do nada, não encontramos o
comandante para exigir o mandado.

A tropa de choque fazia um segundo cordão lá em baixo próximo das casas.
Houve uma tentativa por parte dos moradores e apoiadores de romper o
cordão policial, eles então jogaram spray de pimenta no rosto das pessoas
inclusive crianças e chamaram reforço da guarda municipal. Numa segunda
tentativa de romper o cordão, houve novamente spray de pimenta e reforço,
desta vez da tropa de choque. Então formou-se um cordão cabuloso com
policiais militares, guardas municipais e tropa de choque.

O tempo todo ouvia-se o barulho dos tijolos caindo e casas sendo
derrubadas que cortava o coração de qualquer ser humano que o possui.

O advogado chegou mais tarde pois estava em audiencia com o juiz e não
podia sair antes, nisso quase todas as casas já haviam sido derrubadas. O
advogado conseguiu descer para tentar resolver o que ainda desse para
resolver, esperando lá de cima ouvimos boatos de que estavam tentando
prender o advogado e nos pediram que fossemos até a outra entrada, onde
tinha menos gente para ver se os policiais iam sair com ele por lá.

Fomos até lá, estavamos em 4 pessoas, todos encapuzados, chamando um pouco de atenção pois não teve muita gente que aderiu ao encapuzamento.

Chegamos do outro lado, só haviam policiais lá, sentamos na grama do
barranco para ficar de olho, apareceram algumas pessoas à paisana se
dizendo estudantes de direito e fazendo algumas perguntas (se nós eramos
do movimento, se podiam tirar foto etc), só demos meias respostas, todas
com um pé atrás, esse tal estudante foi então falar com os policiais que
etavam logo abaixo, enquanto isso aparecerem alguns meninos da comunidade,
uns 3 de aproximadamente 14 nos que se aproximaram do poiliciais que
gritaram dizendo que subissem, um deles ao se virar para subir recebeu um
soco nas costas e quase caiu, instintivamente nos levantamos dizendo “O
que é isso?!!” os policiais ficaram emputecidos nos mandaram calar a boca
se não o coisa ia ficar preta pro nosso lado e subiram na nossa direção,
abriram as mochilas, revistaram tudo, pediram documentos para puxar nossa
ficha. O que até então se dizia estudante de direito nesse momento se
assumiu policial civil.

Umx de nós estava com uma câmera fotográfica, havia feito muitas fotos com
os rostos e identificação de muitos policiais, dos guardas municipais, das
placas das viaturas e das demolições, o policial civil pegou a câmera e
apagou todas as fotos sob ameaça de morte caso tivessem fotos dele.

Houveram muitas ameaças, chigamentos e comentários extremanente machistas.

Nesse momento houve um pequeno desfalque ou apenas um relaxamento por
parte da polícia do outro lado (ja que os encapuzados tinham saido) e uma
parte da galera conseguiu descer. Entraram nas casas que ainda restavam e
(umas 7) e não deixaram que elas fossem demolidas. Pouco tempo depois a
polícia desistiu e foi embora. A desistência dve ter s dado pelo fato de
que o advogado estava lá e havia comprovado a inexistência de mantado
judicial, e além disso tinha muitas pessoas dispostas a ficar nas casas
não importsse o que a polícia fizensse, ou seja ia ficar muito feio se
tentassem continuar as demolições pois isso só seria possivel caso
houvesse um massacre.

Depois da polícia ter ido embora, e a ordem (não juducial) de despejo
sUspensa, foram levantados barracões de lona para que as famílias pudessem
dormir, e muitas delas foram alojadas também nas casas de vizinhos, durant
a noite e em baixo de chuva, os moradores e apoiadores continuaram
erguendo barracões e recomessando as casas.

MAIS UMA AÇÃO CRIMINOSA POR PARTE DA POLÍCIA E DA PREFEITURA DE BELO HORIZONTE!
MAS NÓS NÃO FICAREMOS CALADOS E NEM PARADOS! TODOS EM APOIO AS COMUNIDADES AMEAÇADAS DE DESPEJO! FORA MÁRCIO LACRDA, SEU GOVERNO É UMA MERDA!
FORA COPA DO MUNDO E CONTROLE FACISTA DA FIFA SOBRE AS CIDADES SEDE! FORA PM DO MUNDO!
FORA PROCESSOS DE GENTRIFICAÇÃO, MASSACRE DO POVO POBRE!

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2011/10/499055.shtml

Casa da Bandeira Preta – Agrupamento de indivíduos autonomxs em
resistência na Dandara
Cada barracão de lona também é uma bandeira preta!



MEXEU COM A DANDARA, MEXEU COMIGO! by D. Graça

Se você está fora do país, ou conhece alguém que esteja, contribua com a CAMPANHA INTERNACIONAL DE SOLIDARIEDADE À DANDARA. Tire foto(s) com um cartaz dizendo “Despejo não. Com Dandara eu luto!”. Assine o nome, local e data da foto. Sugerimos que tal foto seja tirada num local que identifique facilmente o país.

Publique a foto no Facebook e a envie pra comdandaraeuluto@gmail.com

Mais informações sobre Dandara: http://www.brigadaspopulares.org/

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Segunda Dose #Occupywallstreet by D. Graça
outubro 11, 2011, 10:13 am
Filed under: Sem categoria

Toda segunda-feira Bruno Torturra exibe esse programa online onde discute assuntos e acontecimentos realmente pertinentes à homens e mulheres pensantes.

Ao invés de assistirem CQC façam um bem à si próprios e assistam Segunda Dose.

Cérebro, consciência, estados alterados, sonhos, drogas, ativismo e outros hobbies para maiores de idade. Ao vivo toda segunda feira, por volta das 23hs.

1 – #occupywallstreet – Segunda Dose

http://www.ustream.tv/recorded/17669557

2 – #occupywallstreet – Final – Segunda Dose

http://www.ustream.tv/recorded/17671668

3- #occupywallstreet  – Segunda Dose

http://www.ustream.tv/channel/segunda-dose#utm_campaign=t.co&utm_source=8961768&utm_medium=social



Isso é política! O mundo está acordando. by D. Graça
outubro 11, 2011, 9:52 am
Filed under: Cidades, Eventos, Filmes, Movimentos de resistência | Tags: , ,

ESSE MOVIMENTO É UM EXEMPLO DISSO, NÃO SE TRATA APENAS DA MÁ GESTÃO DE UM POLÍTICO, É MUDANÇA DE CONSCIÊNCIA DO HORIZONTE.

24 de setembro de 2011 – Belo Horizonte/MG

1ª Marcha Fora Lacerda

Em 2008, PT e PSDB se uniram em uma aliança promíscua para eleger um empresário como prefeito da cidade. Após eleito, Márcio Lacerda dá inicio a uma série de ações privatizantes, cerceando o uso de espaços públicos, vendendo ruas públicas, distribuindo cargos públicos para aliados políticos.

Instaura-se uma ditadura do executivo, onde vereadores cooptados por sua base política ficam imobilizados diante as ações do prefeito.

Atualmente o ministério publico denunciou o prefeito por mal uso do dinheiro público, foram quase 1 milhão de reais em viagens de jatinho fretado. A segunda denúncia do ministério publico é por nepotismo, por ele ter eleito seu filho como presidente da comissão da copa do mundo.

Suas politicais de higienização social incluem a expulsão dos moradores de ruas do centro da capital, através de apreensões ilegais de pertences como cobertores, mochilas, documentos, realizadas pela gerência de ação social.

Em 2011 Márcio Lacerda antecipa as eleições gastando mais de 32 milhões de reais em propaganda sobre seu governo e inicia a cooptação da base politica com fins de eliminar a disputa eleitoral de 2012. É o fim da democracia.

Diversos segmentos da sociedade se uniram para demonstrar a insatisfação com os rumos que a prefeitura vem administrando a cidade. Numa marcha apartidária, 2000 pessoas entre jovens, velhos e crianças saem às ruas pedindo o impeachment do prefeito.

Mais informações: foralacerda.com



Flor do Asfalto Alerta! by D. Graça

Documentário:: A flor que brotou na rachadura do progresso

A Okupa Flor do Asfalto se mantém alerta diante da ameaça de despejo no dia 30/09/2011. Há três semanas ,policiais bateram na porta da okupação e ,  com aquele humor “sutil” dos matadores, entregaram a notificação com data e prazo para o desalojo. Desde então, os atuais okupantes declaram atenção a esta situação, chamando à solidariedade internacional contra o Choque de Ordem, seus contínuos despejos e toda a onda de repressão que vem acarretando.



Roteiro: a cidade e os flashmobs by D. Graça
setembro 13, 2011, 1:05 am
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por PABLO GOBIRA

1968, Europa. Talvez seja necessário dizer “França, Paris”, mês de maio. Tal como um texto, esse cenário cita o 1871 francês, da Comuna de Paris, hoje com seus 140 anos. Ambos idosos. Ruas fechadas, barricadas. O que têm em comum? Cenário: cidades.

1999, Estados Unidos da América. Mais especificamente: Seattle. 30 de novembro. Uma bomba de efeito moral explode. Alguém chora de susto e pelos gases de pimenta e lacrimogêneo. Cheire esses gases e experimente para entender. Não. Imagine. Deseje o impossível: imagine que conhece o cheiro do gás de pimenta. Ruas fechadas. Veja os filmes Showdown in Seattle (dirigido pelo Indymedia) e Battle in Seattle (dirigido por Stuart Townsend).

1998-2001, todo o mundo se torna palco de intervenções variadas. Autoconvocadas pela Ação Global dos Povos (AGP), as pessoas se solidarizam com a negação do capitalismo em vários locais do planeta. FMI, Banco Mundial, o grupo dos países ricos, a Organização Mundial do Comércio se reúnem, os da AGP também, mas para atrapalhá-los. Uns chatos! Alguns criticam isso como uma especialização das manifestações. Outros criticam como ações separadas do cotidiano. Milhões de pessoas solidarizadas contra o capitalismo em centenas de países no mundo. (É isso mesmo? Será que essa conta está certa?) Concretamente a maioria das ações – coloridas, lúdicas, divertidas – interagem com o espaço urbano. Vidros de estabelecimentos são quebrados, paredes são pixadas, asfaltos são rabiscados, ruas são transformadas em passeios. Ruas como o fim do caminho do meio.

2001, 11 de setembro. Silêncio. Caça às bruxas. Manifestação do estado de exceção. Tempo de vida suspenso. Tédio. Frustração. Apenas a mercadoria pura e simples pode circular. As mercadorias tensas, que querem se expressar, não podem se solidarizar. O tempo se solidariza com o silêncio. O silêncio vira método e meta do grito. A meta é o mesmo.

2002, começa um tsunami de protestos. Todos queriam se manifestar. Contra a Guerra do Iraque, contra a invasão ao Afeganistão, contra o silêncio. Cria-se o Fórum Social Mundial, o primeiro lugar onde se podia quebrar, pixar, virar um carro da polícia sem ser preso, o primeiro lugar onde se podia atingir a propriedade privada sem ser penalizado. Todos são contra… contra… contra. Ninguém parece “anti” ou “arqui”.

2002, todos queriam que o século XXI tomasse forma. A única forma foi a pausa. As pessoas começaram a fazer protestos sobre tudo e qualquer coisa. Há essa possibilidade. O estado de exceção ensaia uma paródia do estado de direito. Todos têm a liberdade de se organizar via Internet, é mais fácil, mais rápido. Supimpa! Convocatórias são criadas, feitas, protestos tomam forma, acabam-se, pronto.

2002, da quantidade e multiplicidade de enfoques dos protestos, surge o Flashmob como mania.

2002, flashmobs (flash + mobilization) são herdeiros dos happenings (já secular), da blitzkrieg (já oitentona), da situação (já cinquentona) e da Zona Autônoma Temporária (quase trintona), mas apenas como paródia. 1968 ensinou: “não confie em ninguém com mais de trinta”.

2002, as cidades viram escolas de resistência contra – advinhem?! – a cidade. Na cidade se mobilizam contra os carros, contra o ir e vir da mercadoria, contra as roupas, contra o trabalho, contra o controle dos corpos, do gênero, da cultura, do futebol, contra… contra… contra. Logo começam as mobilizações a favor da bicicleta, das sacolas retornáveis de tecido para carregar as compras, a favor do meio ambiente.

2002, todos podem, pelas redes sociais, marcar seu protesto. Um protesto é fruto de uma corrente, forma herdada daquelas cartas que recebíamos em nossas casas há alguns anos.

2002, quem encontrar esta corrente de Nossa Senhora deve fazer 4 cópias por dia durante 60 dias e tudo o que pedires será atendido. Seis donos de um restaurante precisavam de 500 mil reais e conseguiram antes de 60 dias. Os donos de um mercado perderam tudo o que tinham porque quebraram esta corrente. Faça 4 cópias por dia durante 60 dias e publique. Faça seu desejo!

2002, faça seu panfleto com o modelo em anexo e encontre-nos na praça 7 de setembro no dia 22 de março de 2002 para se manifestar contra…

2002, o que ainda é moda e mania logo será substituído por algo menos tedioso. O protesto tedioso é substituído pelo que será frustrante. Sempre teremos novas cores para novas formas de protestar. Algum deles talvez vingue.

2002, a queda dos ditadores no norte da África é considerado pela mídia mundial um flashmob. Flashmob é uma corrente nas redes sociais de Internet que dá certo. As pessoas vão divulgando, passando a mensagem, confirmando presença e estamos prontos para mais um protesto. Poucas pessoas ficam sabendo e as que sabem acabam indo, muitas vezes porque não têm algo mais interessante para fazer. Vira algo muito mais pontual, temporário, que acaba sendo deixado pra lá quando acaba. Semelhante a um passatempo que deixa resquícios na memória do participante.

2002, o protesto permitido e o flashmob (marcado pela Internet) não correspondem aos crimes sociais, perdem o parentesco com o maio de 1968 e as ações anticapitalistas da virada do século XX para o XXI. A cidade pede possibilidade e não permissão.

2002, todas essas ações contagiam pessoas em diversos setores da sociedade: universidades, tribunais, fábricas. O risco diminui, pode-se protestar, pois tudo deixou de comunicar, a radicalidade se espacializou em dispersão. Protestos contra a privatização de praças, a favor da ocupação de lugares públicos, contra a mudança de comunidades de seus lugares tradicionais, contra a copa, contra as olimpíadas e seus impactos. Tudo esparso e absoluto, mas não mais aqui e em outros lugares. Apenas aqui. Aqui se faz, aqui se paga. Chega ao absurdo da possibilidade: uma lei de incentivo a cultura financia um show contra a privatização das praças da cidade. Cidade contemporânea.

2002, último avanço. A marcha das vagabundas. Os mesmos que estavam no protesto de ontem estão no de hoje. Os mesmos 100, 200, 1000, não importa. Os mesmos separados, isolados, mobilizados por redes sociais. Apenas pelas redes sociais. A cidade põe um ponto e dá um basta. Cinto de castidade.

2002, a mídia repete que foi a Internet que tornou capaz tais articulações, da marcha das vagabas até a queda das ditaduras no norte da África.

2002, os protestos se tornam flashmob deixando de ser um crime social para se tornar uma ação social a favor da reforma da cidade. A cidade precisa de obras materiais e imateriais.

2002, os protestos são um lugar de diversão que ampliam o espaço virtual de convocação pela convocação iniciado nas redes sociais. Aparentam ser tão vazios de sentido quanto os seus locais de execução após a diversão. Parece fácil ser horizontal em um parque de diversões e em uma mesa de bar.

2002, cena final: o protagonista perde o fôlego, mas logo se anima novamente, pois sabe que quanto mais protestam, melhor.



Panoramas de jogos e cidades by D. Graça

Fonte: http://pt.contrainfo.espiv.net/

Brasil: A Pau e Circo ou a Pau no capitalismo e controlo social?

A Copa 2014 e as Olimpíadas 2016 ameaçam desde já a vida, já tão difícil, de milhões de pessoas, em todo o Brasil. Os megaprojetos de “urbanização”, nas cidades-sede,  como sejam o caso do Rio de Janeiro, S.Paulo,  Porto Alegre, Belo Horizonte e Fortaleza, estão a provocar mega-operações de despejo, de desemprego, de  restrição das liberdades individuais, de concentração do capital, em suma: megagentrificação, megarepressão, megapobreza.  Coerção e consentimento, criminalização dos pobres e “patriotismo da cidade”. Eis a velha fórmula de hegemonia. E há aqueles que resistem. Lutas que começam antes, se intensificam durante os eventos e continuam após esses terminarem. A guerra social.

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Solidariedade: É comunicado o despejo da okupa Flor do Asfalto by D. Graça

Ainda que à beira do porto, sente nas narinas um ar seco, granulado como areia. Aquela flor nunca murchara. Nesse chão arenoso, face a face com os maus tratos áridos-barulhentos desse mar, desse Rio, a flor responde a cada rajada poeirenta, a flor dura a qualquer catástrofe. Nenhuma teoria, nenhum poema exuberante duram mais que esta flor, que se fez de sorte e de azar: o cadáver estranho beberá do vinho novo!

No dia 5 de setembro, às 19 horas, dois policiais chegam prepotentes na porta da ocupação FLOR DO ASFALTO, com fuzis nas mãos, gritando que atirariam na cachorra caso ela os mordesse. Depois de ameaças de derrubar o portão, abrimos a porta, eles pediram alguém com documento e entregaram uma notificação, esta do desalojo já marcado pra acontecer no dia 30 de setembro.

Diante de momento tão sensível, decidimos não cancelar nenhuma das atividades programadas pra este mês no espaço, pelo contrário, queremos efetivá-las com todo o tesão e energia que possamos, nossas propostas e nosso kotidiano não se enfraqueceram por conta desse alarme.

Chamamos pela solidariedade internacional neste dia, que todas as flores espinhosas manifestem sua raiva ao existente do modo que lhes parecer mais interessante. (mais…)



Uma reflexão anarquista sobre realidade do Rio de Janeiro, o Choque de Ordem e os jogos de 2014 e 2016 by D. Graça

Saudações, comp@s!

Esse panfleto está circulando com a proposta de acrescentar aos atuais debates sobre as revitalizações urbanas, higienismos e os eventos da Copa 2014 e Olimpíadas 2016. Uma reflexão anarquista sobre o atual contexto do Rio de Janeiro, voltada principalmente para redes de movimentos de resistência, ocupações urbanas e iniciativas libertárias espalhadas pelo mundo afora.

Divulguem!

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Genocídio e Espetáculo

Algumas palavras sobre os processos vividos no Rio de Janeiro dentro de uma perspectiva anarquista

O seguinte texto surge de uma reflexão coletiva realizada entre indivíduxs que circulavam na okupação anarquista Flor do Asfalto, que se situa no olho do furacão dos projetos de reurbanização e consequente endurecimento da repressão no Rio de Janeiro. A presente reflexão pretende contribuir, partindo de uma ótica anarquista, para o esclarecimento quanto aos processos de criminalização da pobreza e violência estatal declarada contra os movimentos de resistência rebelados frente a tais projetos. Motivou muito a elaboração desse ensaio o seu poder de acrescentar mais elementos aos debates que já fervem no Rio de Janeiro e outras cidades, para que pessoas que não tiveram a oportunidade de vivenciar em suas próprias peles esta realidade tão particular possam, enfim, respirar um pouco desses ares. Essa iniciativa surge, também, com a intenção de contribuir para a guerra social, já que as estratégias do poder hierárquico já há séculos se reproduzem e se repetem em diferentes regiões e distintas épocas. Afinal, acreditamos que o que hoje se vivencia aqui pode ser nada mais que um estágio avançado dos próprios sintomas das grandes cidades, pelo menos no que diz respeito ao território controlado pelo Estado brasileiro. (mais…)



11/08, Quinta:: Rio 40 Kaos: relatos sobre a guerra à pobreza no Rio de Janeiro by D. Graça
agosto 10, 2011, 6:40 pm
Filed under: Cidades | Tags: , , ,

Mandando brasa nas oportunidades de debate que estão surgindo em BH, dois moradores da ocupação urbana Flor do Asfalto (no Rio de Janeiro), propõem atividade na quinta-feira à tarde. No espaço Ystilingue, antes da Quinta Vadia.

Rio 40 Kaos: Guerra à pobreza!

Bate-papo sobre os processos vividos no Rio de Janeiro. UPP’s. Choque de Ordem. Revitalizações. Copa do Mundo. Olimpíadas. Mobilizações de resistência de tudo que é tipo, arranhando aquele cotidiano-turbo carioca.

Quinta
11/08
17h

Espaço Ystilingue
Edifício Maletta, sobreloja 35 – av. Augusto de Lima c/ rua da Bahia – Centro – Belo Horizonte.

AJUDE A DIVULGAR!



Contra a corrente, desenhamos essa ponte BH-Fortaleza by D. Graça
agosto 10, 2011, 5:20 pm
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“La lucha es como un circulo, se puede empezar en cualquier punto pero nunca termina.”

El Sup.

Faz algum tempo que vivemos, aqui em Belo Horizonte, uma ânsia em comum, presente numa série de conversas que mantivemos como possíveis em meio ao arrastão do dia-a-dia, nas travessias e questões que insistimos em conduzir pelas vias de contramão, contradição, conflito e acomodação. Essa ânsia se resume de modo não tão simples: que fatos e aprendizados estão ainda sendo produzidos no seio das lutas anticapitalistas que se desencadearam – ou continuaram se tecendo – ao longo dos últimos 10 anos? Que narrativas estão hoje se escondendo nas profundezas da dispersão, do esquecimento produzido entre nós mesmos, quando nos entranhamos nas tramas de uma sociedade pós-industrial crescentemente consumista? O que as lutas dessa última década de crises e conflitos nos deixam no plano das investidas radicais contra o reinado da economia mercantil?

É nessa perspectiva que a Universidade Pirata, a Associação Comunitária d@s Amig@s de Pereira (ACAP), juntos @s Proletarizad@s Contra a Corrente (PCaC), convidam para a troca de relatos em torno da última década de lutas anticapitalistas em Belo Horizonte e Fortaleza, para fortalecermos ações a partir daí. Além disso, está no centro desta proposta traçarmos um apanhado geral sobre as lutas atuais, em época dos mega-eventos dos jogos da Copa do Mundo e Olimpíadas e de uma nova geração de movimentos que, de um modo ou de outro, bebeu dos ensinamentos propiciados pelos confrontos da última década.

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13/08, Sábado: Proletarizad@s Contra a Corrente (PCaC) estão em BH! by D. Graça
agosto 10, 2011, 3:57 pm
Filed under: Eventos | Tags: , ,

No próximo fim-de-semana, na Associação Comunitária d@s Amig@s de Pereira (ACAP),  nos encontramos com participantes do coletivo Proletarizad@s Contra a Corrente. Uma troca de relatos sobre a última década de lutas anticapitalistas e atualidades. Veja a programação abaixo:

PROGRAMAÇÃO::

15h – Não começou em Seattle…

Rememorar a luta anticapitalista autônoma da última década em BH e Fortaleza (histórico de lutas, movimentações, grupos/redes, conjuntura local/global, etc.);

17h – ...não termina nunca, essa porra!

Para uma crítica que venha de dentro dos movimentos ou daqueles que se sentem como parte deles. Análise do atual contexto (crises, copa/olímpiadas, gentrificações, etc.) das formas de resistência: marchas, “geração facebook”, okupações, ilegalismos… Panorama global com enfoque em BH e Fortaleza.

+Piquenique (leve um lanche!)

+Vídeos livres

+Cerveja à venda

+Um dia leve

Como chegar:

De ônibus: 9407, 9412, 4110, 4111, 4501, 4405, 4802A e vários outros ônibus param ali na rua Pará de Minas, muito perto da casa.

De metrô: descer na estação Calafate, atravessar a passarela no sentido Via Expressa e subir, subir, subir. Terá que caminhar um pouco, até perto da igreja Padre Eustáquio, lá em cima.


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VÁ DE BIKE!: a avenida Dom Pedro II é uma boa referência. Tente chegar até ela e seguir até a rua Vila Rica. Suba essa rua até a Pará de Minas.



[informes] Fogo Grego! by D. Graça
junho 1, 2011, 8:38 pm
Filed under: Sem categoria

fogogrego.noblogs.org




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