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“Voltar… voltar é vertigem!”
Faz tempo que aprendi que nunca há volta, que toda situação é uma situação sem retorno. É por isso mesmo que desacreditei, quando ainda era moleque, de qualquer possibilidade de revolução que não for cotidiana – esse estado de transformação que nunca é percebido enquanto está sendo feito e que sempre passa deixando frestas e escombros de uma era passada. Para muitos astrólogos de séculos atrás, esta palavra – “revolução” – significava retorno a um estado de equilíbrio, que seria a revelação de alguma natureza de ser das coisas, estável. Não existe volta… o que fazemos é simplesmente continuar dando voltas, dando passos e refazendo nossos sintomas de estar vivxs ou de estar mortxs ou de viver tão-somente. Enquanto a vida é ainda uma possibilidade… enquanto a vida ainda vale a pena por suas surpresas miúdas. Quando eu quiser cair, vou cair, vou me jogar – não dá pra desistir no meio dessa escolha, ao se jogar a queda e o baque são inevitáveis. A vertigem é mais ou menos isso: desistir e se arrepender quando a queda já não pode ser desfeita – “o medo da queda, a voz do vazio debaixo de nós”.
Solidão, um mar sem fim
Voltei a visitar abismos e a sentir meus passos me guiando sem interrupção até eles. Vi mais mares revoltados, fazendo estrondos bem no fundo de cada sentido meu. Sinto vir dali um um apelo desesperado e desesperançado, que é o eco que responde aos gritos do meu íntimo, repetindo contra mim as mesmas perguntas, me obrigando a dar a elas as minhas próprias respostas. Quando percebi, eu tinha calor, não sentia mais o frio e me movimentava mais leve e suave, pois vejo que depois de cada golpe não perco a capacidade de questionar e me fazer questões. Ainda vivo… Escolhi o deserto como exílio para acalmar o coração.
Lembrar é ser visto
Me atormentei de lembranças até ver que elas me animam e conectam cada parte de mim a tudo que desejo, tudo que amo. Se não fosse isso, sem dúvida eu já estaria aniquilado. Porque todas as novas minúcias que eu desvendo me convencem de que tenho novos presentes a dar para aquelxs com os quais quero estar. Tu és parte disso, pois em cada descoberta minha, em cada novo mundo que crio, abro e visito, encontro parte do que aprendi contigo e outrxs. Por vezes, sinto alguém… muitas vezes me deixo levar pelo vento, pelo que o vento me diz.
Sobre lembranças e distâncias
Na medida em que passa o tempo, sinto menos. Minha memória trabalha bem, mas tenho problemas em cultivar o que não existe materialmente e agora. Distância e ausência. Os cheiros e sensações ficam cada vez mais abstratos, se tornam poesia de puro pensamento. Parece tudo ilusão da minha cabeça… sonhos mal recordados… invenções minhas. Onde você está?
Estranhar um novo velho lugar
Curto aproveitar esse lugar de forasteiro e não ter compromissos com histórias que ficam se contorcendo dentro de mim. Acho agradável poder ser qualquer coisa, porque não sou nada nem ninguém nessas situações, só um estranho. Não há espécie mais domesticável que o bicho-homem. Nos adaptamos a qualquer repetição medíocre. Por ser tão pouco, por saber tão pouco sobre tão poucas coisas, muitas vezes prefiro, em vez de ser, estar. Pois ser… “ser não é ser visto”.
Processos desérticos
Me senti atropelado por tantos desses processos e momentos frágeis. Não sei onde estou, se tenho algum objetivo com minhas caminhadas. Não sei se ainda estou no deserto, se já saí. Há momentos em que não sinto falta de nada, em que não sou nada nem ninguém, em que posso atender por qualquer nome. (Eu já lhe escrevi sobre isso, sobre como eu lido com a condição de forasteiro.) Tento manter a firmeza de meus atos, pra não ser esmagado por esse atropelo que é, às vezes, estar vazio demais.
Toque de faísca
Vamos nos encontrar a qualquer hora (mesmo que isso demore anos pra acontecer). É o nosso fluxo indecifrável e inevitável. Com mais fibras nas asas, mais destreza no vôo, mais dureza na queda, no baque contra o chão. Mais faísca, mais fogo e calor a espalhar – antes da penumbra em nossos corpos.
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Por Joviano Mayer[1]
“Vai passar nessa avenida um samba popular. Cada paralelepípedo da velha cidade esta noite vai se arrepiar. (…) Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade, até o dia clarear. Ai que vida boa (…)” [2]
É na cidade medieval, inserida no contexto do mal chamado “período das trevas”, onde nasce o carnaval como o conhecemos no ocidente, antecedendo o período da quaresma. Essa mesma cidade acolheu os servos que fugiam da opressão do feudo para se organizarem em corporações de ofício. O assalariamento, a grande indústria e o próprio capitalismo vieram em seguida e aniquilaram o associativismo e as relações forjadas até então com o espaço produzido. A cidade, gradativamente, reproduziu as contradições sistêmicas da nova ordem social, mercantilizou-se para ser vendida aos pedaços, um produto e não mais uma obra genuinamente humana. O privado se revoltou contra o público e a festa, antes na rua, torna-se fechada, privada.
Porém, a cidade, talvez a maior invenção da humanidade, recobra sua condição originária, ambiente da felicidade e da realização pessoal, lugar em que foi possível concentrar “os milagres da civilização moderna”[3] e atrair bilhões de pessoas em todo o planeta. Sem dúvida, a luta pela cidade possui hoje uma dimensão revolucionária e, por que não, emancipatória. Um grande marxista[4] diria que o futuro da sociabilidade humana depende do futuro da sociabilidade urbana.
Nesse ponto retomamos o carnaval, na urgente luta pela cidade como cenário da festa, da felicidade, do encontro, a cidade como valor de uso e não mercadoria, coletivamente produzida, coletivamente apropriada. O carnaval de rua da cor à cidade cinza e poluída, faz da rua a continuidade da casa, tal como deve ser. Das janelas, velhas solitárias admiram os blocos, jovens atiram água sobre os foliões, crianças abrem os portões e vão à rua sem receio dos carros ou da violência. A privacidade silenciosa, seja no quarto ou no escritório, é contestada pelo som dos tamborins. O carnaval de rua também trás consigo contradições, pois é refém de uma sociedade cheia delas, mas isso não lhe retira a beleza e seu potencial.
Ouso dizer que uma revolução verdadeira também deve ter como horizonte imprimir a festa na cotidianidade do urbano, e o carnaval é uma grande festa. Em Belo Horizonte, o carnaval de rua permitiu em certa medida a (re)ocupação do espaço público, a socialização da gente e a contestação do poder constituído. Nem o reto do prefeito empresário, nem a coxinha da madrasta[5] restaram imunes.
Nessa mesma cidade, há quatro anos ocorre sob um viaduto o encontro massivo da juventude do morro e do asfalto em duelos de hip hop, nos quais há duras batalhas sem qualquer violência[6]. Os indignados com os impactos da copa do mundo promovem “peladas” em praças públicas. Mas durante o carnaval as manifestações artísticas e políticas foram embelezadas com purpurina, fantasias e tambores. Os blocos, organizados sem patrocinadores oficiais, ganharam as ruas e fizeram milhares de pessoas experimentar a cidade como valor de uso. Ah! E como foi bom…
Mas é preciso estar atento! “Os moralistas querem impor sua conduta”[7]. Para ser mais direto, o capital almeja mercantilizar a festa, apropriá-la como grande negócio e conferir ao carnaval um rentável valor de troca, seja dentro ou fora do eixo. Em alguns lugares, o humano coisificado em muros separa os foliões brancos das pipocas pretas. Noutras cidades, paga-se pelo ingresso, pelo desfile, pela transmissão exclusiva, enquanto milhões prestigiam passivos pela TV.
De todo modo, em nossa cidade, (re)nasce algo diferente, ainda imune à restrita lógica da reprodução ampliada. O recente fenômeno segue estritamente vinculado à rua, ao ambiente público (re)apropriado pelas pessoas, com fantasias e apetrechos, invertendo os sexos, as morais e as leis. A polícia não sabe o que fazer, pois os citadinos não estão bravos, mas sorrindo, não brigam, beijam-se libertinos, não portam armas, mas tambores, pirulitos e flores, além do que, não são apenas negros, são de todas as cores – e quantas cores!
Se liga, autoridade! Para um povo que fez da praça privatizada uma linda Praia, não é impossível fazer da cidade uma linda festa, onde caibam todos e todas!
[1] Militante das Brigadas Populares que pulou, amou e fez política no inesquecível carnaval (não oficial) de Belo Horizonte.
[2] Música Vai passar, composição de Chico Buarque.
[3] ENGELS, Friederich. A questão da habitação. São Paulo: Acadêmica, 1988.
[4] PAULA, João Antônio de. As cidades e A cidade e a universidade, in As cidades da cidade. Belo Horizonte: UFMG, 2006.
[5] Referência às marchinhas da Praia da Estação e da Coxinha da Madrasta.
[6] Referência ao Duelo de MC’s promovido pelo Coletivo Família de Rua, debaixo do viaduto Santa Teresa, em Belo Horizonte, toda noite de sexta-feira, sem qualquer apóio da Prefeitura.
[7] Marcha do bloco da Alcova Libertina.
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Tem tempo de estar “asa” e tem tempo de estar “raíz”… Nem sempre há escolhas (e o posto é doloroso por igual – a total liberdade de escolha pode revelar encruzilhadas múltiplas) e o “estado” de voar ou “estado” de estar fincado podem se embaralhar: por vezes podemos ser atados por nossas próprias asas e por outras semeamos e somos semeados pelos ventos mesmo que imóveis…
Sou otimista! Assim procuro ver o longo desenrolar. Quando reflito é assim, quando estou metido o sangue borbulha e a aceleração dos batimentos e da mente me fazem explodir.
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Cada movimento meu me leva ao abismo. Estou caminhando, mano. Experimentando novos rumos solitários, insistindo na idéia de que devo manter-me dinâmico, vivo, movimentando o corpo, sem perder o fio. Mas vez ou outra me vejo perecendo, sentindo o frio, sentindo a falta, sendo a todo tempo, existindo dentro e fora do tempo, a todo o tempo, superacumulado de meus sentidos e atinos. Falhando em minhas passagens, me injuriando com iniciativas faltosas, ineficientes, equivocadas. Mas sigo… passo a passo.
Tenho pouco tempo – Respiro ar pesado de verdade, meio perdido e muito livre, para ser o que eu quiser, para estar onde eu quiser. Os apertos me consolam, logo que vejo que adentrei um portal de caverna imensa, cheia de renovados mistérios, sutis uivos de leveza, pesadelos e prazeres. Sutis! Falta sutileza (falta demais) nessa época tão hostil, tão repulsiva para com o que se sente e que não pode ser visto. Pego fôlego para não sufocar, quando penso que construí um mundo tão severo e incompreensivo – tão voltado ao próprio umbigo. Vou indo, satisfeito e “livre”, apesar de tudo.
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parceiro meu,
aqui, um puta frio dilacerante! estou me sentindo fodido à beça, mas tranquilo, de boa.
fico lembrando de você e da moça todos os dias… saí daí na surdina, porque não aguentava mais tanta invasão e tantos conflitos internos que eu mesmo causava comigo. preferi dar linha e aprofundar no deserto um pouco mais. foram dias inteiros caminhando pra frente, e isso não me facilitou muita coisa. chegar foi como aportar num moinho de gente feito de cabeça pra baixo!
o veneno está no coração do homem!
nos vemos numa dobrada qualquer, maninho. te cuida e te acalma, se preciso for.
conserve força para o que deseja.
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Na mata densa e cerrada, alguém está lá comigo? Essa selvageria que abrigo, pelo menos numa idéia romântica no meu íntimo. A falta de coragem, as questões que ressurgem sobre tudo que faço. Sentir ser farsa, respirar e tragar a mentira. Sentir não ser nada e com isso não fazer birra.
Ser selvagem é ter que ser violento, contra mim, contra tudo. Ser violento e abandonar. Ser duro e destruir… o cheiro, o gosto, a sensação do que é civilizado, pôr fim ao sentido das heranças e raízes, à tônica do amor e do ódio, para além do bem e do mal. Frieza e sossego. Abolir tudo que pode ser perda ou ganho. Fazer isso vivendo, sem pensar e seguindo, continuamente indo, sempre indo sem metas, destino, projetos, previsões, num mundo decaído, eu mundo caído em pedaços, querendo sozinho tudo e mais nada, querendo que qualquer pouco seja o suficiente.
Há um selvagem gritando em mim, e ele não é bom nem ruim. Fala pouco mas cochicha nos meus ouvidos: “Vá, vá, vá, maluco! Larga tudo e faz o que quer! Se acabe de viver, se acabe de… acabar!”.
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Sim, eu queria ser fácil. Fácil de falar, de dormir, de conversar, de me abrir, de me fechar, de não pensar, de sair de cena, de ser pequena coisa pouca, de não ser só confusão, de sorrir, de receber, de estar em companhia. Mas tudo isso é atravanco, lesma lenta arrastando a gosma, fases que deixam rastro no pouco de mim, ainda que eu tenha todo o cuidado – de ser discreto, do papo reto. “Quantas vezes terei eu que dizer… o parco que sou, o pouco que sei?”. Eu existo sem ser nada. Gero seres sem nem perceber.
Fiquei forte, saco de pele vazio. Pele rasa, riso rasante que começa por cima do mundo, desgoverna e cai girando, calado, espiralado. Se é profundo, vai tudo pro fundo.
Quem tira proveito, tira sem querer. Fico me vendo em atos ao redor, em outros corpos, gente falando coisas que eu penso, que eu já disse (ou escrito pra mim mesmo ou numa conversa íntima), usando termos, gírias, modos-de-dizer, se posicionando no ambiente… ao meu modo, como eu faria, fazia e faço. Outra gente manifestando conturbações, “sensações ruins”. Será que estou poluindo?
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Decobri um pedaço desse lugar, que só pude conhecer de longe e no plano da imaginação. Fomos subindo e pegando trilhas, andando sem limitar muito a caminhada, sem pôr muitos contornos na serra.
Ficamos ali cercados pelos contrastes verdes e avermelhados. O verde que me insulta e me convida à selvageria que palpita num lugar escondido do meu coração, uma mescla de desejo e repulsa diante das coisas civilizadas. O vermelho ali casado, aquele mesmo velho vermelho das minerações, da terra exposta pelo sacode das escavadeiras e dinamites, vermelho de velhas bandeiras que tu e eu conhecemos. Fomos catando uma ou outra pedrinha de minério (ferro!?) que encontrávamos na superfície, e eu ficava me questionando, a-bis-ma-do, se aquilo era de fato ferro, assim, achado no chão. Depois, descemos e imergimos no cinzento de novo. Parceiro meu, nesse embalo maluco, evoco Manoel de Barros para lhe fazer ilustração de como tenho vivido, sem perceber ou premeditar algum estilo de viver: “Sou livre para o silêncio das formas e das cores“.
Fiz do mesmo jeito que costumo fazer nas minhas andanças: suave, tranqüilo – experimentando a sensação dos gigantes. E, o que mais me importa, fiz sem dever nada a ninguém.
Com saudades.
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escolher o momento de conformação não significa estar entregue, submisso a qualquer derrota. veja você… que nunca ninguém perde nem ganha. nossos confrontos estão em nós, no fundo do íntimo… o que nos coloca em nossos lugares é justamente esse “definir”: por onde trilhar cada passo, com quem e o que fazer para a realização de nossos anseios, é essa definição que nos situa, nos diz de onde viemos e para onde vamos, nos permite atear o fogo da linha de conflito em vez de sermos carbonizados pelas chamas.
com a licença desse devaneio, quero apenas dizer que desapegar e praticar o abandono dá força ao que ainda nos resta de idéias, propostas e práticas. não, rapaz… nada acaba, temos uma ilustração ideal de um fim em tudo, mas minha vida vem me convencendo de que não, falar a respeito do encerramento de nossos ciclos não é uma tarefa tão banal e simples, creio que nunca é possível ser tão claro e seguro quanto ao que começa e o que se fecha. porém, algo me estimula muito nessas encruzilhadas filosóficas que criamos: sei que o começo e o fim me abrem um sem-número de portas e possibilidades. quando menos me apercebo de minha condição, me vejo completamente mudado, me sinto outra pessoa, vejo que revolucionei o mundo sem ter uma percepção imediata disso.
estou em pausa… tentando me perceber mais. e me acalmei daquele vendaval confuso e descarrilhado, respirei com mais leveza pra conseguir não me estrangular de tanto ser, tantas questões manhosas que me pus nessas andanças, tantas memórias que me atiçaram (lembranças que incluíam a sua presença). fico tranquilo por estar mais quieto, dando tempo aos burburinhos cacofônicos da cidade, desses antros de pouca vida, os únicos tipos de lugares onde aprendi a sobreviver. maravilhosos antros! eu resolvi agradecer ao dia, toda vez que me sinto agoniado… agradecer por ter me oferecido tantas possibilidades de que desfrutei tão pouco.
siga o melhor vento. ainda nos vemos…
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por PABLO GOBIRA

1968, Europa. Talvez seja necessário dizer “França, Paris”, mês de maio. Tal como um texto, esse cenário cita o 1871 francês, da Comuna de Paris, hoje com seus 140 anos. Ambos idosos. Ruas fechadas, barricadas. O que têm em comum? Cenário: cidades.
1999, Estados Unidos da América. Mais especificamente: Seattle. 30 de novembro. Uma bomba de efeito moral explode. Alguém chora de susto e pelos gases de pimenta e lacrimogêneo. Cheire esses gases e experimente para entender. Não. Imagine. Deseje o impossível: imagine que conhece o cheiro do gás de pimenta. Ruas fechadas. Veja os filmes Showdown in Seattle (dirigido pelo Indymedia) e Battle in Seattle (dirigido por Stuart Townsend).
1998-2001, todo o mundo se torna palco de intervenções variadas. Autoconvocadas pela Ação Global dos Povos (AGP), as pessoas se solidarizam com a negação do capitalismo em vários locais do planeta. FMI, Banco Mundial, o grupo dos países ricos, a Organização Mundial do Comércio se reúnem, os da AGP também, mas para atrapalhá-los. Uns chatos! Alguns criticam isso como uma especialização das manifestações. Outros criticam como ações separadas do cotidiano. Milhões de pessoas solidarizadas contra o capitalismo em centenas de países no mundo. (É isso mesmo? Será que essa conta está certa?) Concretamente a maioria das ações – coloridas, lúdicas, divertidas – interagem com o espaço urbano. Vidros de estabelecimentos são quebrados, paredes são pixadas, asfaltos são rabiscados, ruas são transformadas em passeios. Ruas como o fim do caminho do meio.
2001, 11 de setembro. Silêncio. Caça às bruxas. Manifestação do estado de exceção. Tempo de vida suspenso. Tédio. Frustração. Apenas a mercadoria pura e simples pode circular. As mercadorias tensas, que querem se expressar, não podem se solidarizar. O tempo se solidariza com o silêncio. O silêncio vira método e meta do grito. A meta é o mesmo.
2002, começa um tsunami de protestos. Todos queriam se manifestar. Contra a Guerra do Iraque, contra a invasão ao Afeganistão, contra o silêncio. Cria-se o Fórum Social Mundial, o primeiro lugar onde se podia quebrar, pixar, virar um carro da polícia sem ser preso, o primeiro lugar onde se podia atingir a propriedade privada sem ser penalizado. Todos são contra… contra… contra. Ninguém parece “anti” ou “arqui”.
2002, todos queriam que o século XXI tomasse forma. A única forma foi a pausa. As pessoas começaram a fazer protestos sobre tudo e qualquer coisa. Há essa possibilidade. O estado de exceção ensaia uma paródia do estado de direito. Todos têm a liberdade de se organizar via Internet, é mais fácil, mais rápido. Supimpa! Convocatórias são criadas, feitas, protestos tomam forma, acabam-se, pronto.
2002, da quantidade e multiplicidade de enfoques dos protestos, surge o Flashmob como mania.
2002, flashmobs (flash + mobilization) são herdeiros dos happenings (já secular), da blitzkrieg (já oitentona), da situação (já cinquentona) e da Zona Autônoma Temporária (quase trintona), mas apenas como paródia. 1968 ensinou: “não confie em ninguém com mais de trinta”.
2002, as cidades viram escolas de resistência contra – advinhem?! – a cidade. Na cidade se mobilizam contra os carros, contra o ir e vir da mercadoria, contra as roupas, contra o trabalho, contra o controle dos corpos, do gênero, da cultura, do futebol, contra… contra… contra. Logo começam as mobilizações a favor da bicicleta, das sacolas retornáveis de tecido para carregar as compras, a favor do meio ambiente.
2002, todos podem, pelas redes sociais, marcar seu protesto. Um protesto é fruto de uma corrente, forma herdada daquelas cartas que recebíamos em nossas casas há alguns anos.
2002, quem encontrar esta corrente de Nossa Senhora deve fazer 4 cópias por dia durante 60 dias e tudo o que pedires será atendido. Seis donos de um restaurante precisavam de 500 mil reais e conseguiram antes de 60 dias. Os donos de um mercado perderam tudo o que tinham porque quebraram esta corrente. Faça 4 cópias por dia durante 60 dias e publique. Faça seu desejo!
2002, faça seu panfleto com o modelo em anexo e encontre-nos na praça 7 de setembro no dia 22 de março de 2002 para se manifestar contra…
2002, o que ainda é moda e mania logo será substituído por algo menos tedioso. O protesto tedioso é substituído pelo que será frustrante. Sempre teremos novas cores para novas formas de protestar. Algum deles talvez vingue.
2002, a queda dos ditadores no norte da África é considerado pela mídia mundial um flashmob. Flashmob é uma corrente nas redes sociais de Internet que dá certo. As pessoas vão divulgando, passando a mensagem, confirmando presença e estamos prontos para mais um protesto. Poucas pessoas ficam sabendo e as que sabem acabam indo, muitas vezes porque não têm algo mais interessante para fazer. Vira algo muito mais pontual, temporário, que acaba sendo deixado pra lá quando acaba. Semelhante a um passatempo que deixa resquícios na memória do participante.
2002, o protesto permitido e o flashmob (marcado pela Internet) não correspondem aos crimes sociais, perdem o parentesco com o maio de 1968 e as ações anticapitalistas da virada do século XX para o XXI. A cidade pede possibilidade e não permissão.
2002, todas essas ações contagiam pessoas em diversos setores da sociedade: universidades, tribunais, fábricas. O risco diminui, pode-se protestar, pois tudo deixou de comunicar, a radicalidade se espacializou em dispersão. Protestos contra a privatização de praças, a favor da ocupação de lugares públicos, contra a mudança de comunidades de seus lugares tradicionais, contra a copa, contra as olimpíadas e seus impactos. Tudo esparso e absoluto, mas não mais aqui e em outros lugares. Apenas aqui. Aqui se faz, aqui se paga. Chega ao absurdo da possibilidade: uma lei de incentivo a cultura financia um show contra a privatização das praças da cidade. Cidade contemporânea.
2002, último avanço. A marcha das vagabundas. Os mesmos que estavam no protesto de ontem estão no de hoje. Os mesmos 100, 200, 1000, não importa. Os mesmos separados, isolados, mobilizados por redes sociais. Apenas pelas redes sociais. A cidade põe um ponto e dá um basta. Cinto de castidade.
2002, a mídia repete que foi a Internet que tornou capaz tais articulações, da marcha das vagabas até a queda das ditaduras no norte da África.
2002, os protestos se tornam flashmob deixando de ser um crime social para se tornar uma ação social a favor da reforma da cidade. A cidade precisa de obras materiais e imateriais.
2002, os protestos são um lugar de diversão que ampliam o espaço virtual de convocação pela convocação iniciado nas redes sociais. Aparentam ser tão vazios de sentido quanto os seus locais de execução após a diversão. Parece fácil ser horizontal em um parque de diversões e em uma mesa de bar.
2002, cena final: o protagonista perde o fôlego, mas logo se anima novamente, pois sabe que quanto mais protestam, melhor.
Filed under: Cidades, Movimentos de resistência | Tags: conflito, Copa do Mundo 2014, debate, gentrificação, grupos e espaços autônomos
Fonte: http://pt.contrainfo.espiv.net/
Brasil: A Pau e Circo ou a Pau no capitalismo e controlo social?
A Copa 2014 e as Olimpíadas 2016 ameaçam desde já a vida, já tão difícil, de milhões de pessoas, em todo o Brasil. Os megaprojetos de “urbanização”, nas cidades-sede, como sejam o caso do Rio de Janeiro, S.Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Fortaleza, estão a provocar mega-operações de despejo, de desemprego, de restrição das liberdades individuais, de concentração do capital, em suma: megagentrificação, megarepressão, megapobreza. Coerção e consentimento, criminalização dos pobres e “patriotismo da cidade”. Eis a velha fórmula de hegemonia. E há aqueles que resistem. Lutas que começam antes, se intensificam durante os eventos e continuam após esses terminarem. A guerra social.
Filed under: Movimentos de resistência, Repressão, Subterrâneos e contracultura | Tags: Copa do Mundo 2014, Flor do Asfalto, gentrificação, grupos e espaços autônomos, ocupação
Ainda que à beira do porto, sente nas narinas um ar seco, granulado como areia. Aquela flor nunca murchara. Nesse chão arenoso, face a face com os maus tratos áridos-barulhentos desse mar, desse Rio, a flor responde a cada rajada poeirenta, a flor dura a qualquer catástrofe. Nenhuma teoria, nenhum poema exuberante duram mais que esta flor, que se fez de sorte e de azar: o cadáver estranho beberá do vinho novo!

No dia 5 de setembro, às 19 horas, dois policiais chegam prepotentes na porta da ocupação FLOR DO ASFALTO, com fuzis nas mãos, gritando que atirariam na cachorra caso ela os mordesse. Depois de ameaças de derrubar o portão, abrimos a porta, eles pediram alguém com documento e entregaram uma notificação, esta do desalojo já marcado pra acontecer no dia 30 de setembro.
Diante de momento tão sensível, decidimos não cancelar nenhuma das atividades programadas pra este mês no espaço, pelo contrário, queremos efetivá-las com todo o tesão e energia que possamos, nossas propostas e nosso kotidiano não se enfraqueceram por conta desse alarme.
Chamamos pela solidariedade internacional neste dia, que todas as flores espinhosas manifestem sua raiva ao existente do modo que lhes parecer mais interessante. (mais…)
Filed under: Cidades, Repressão | Tags: anarquismo, Choque de Ordem, Copa do Mundo 2014, crítica, debate, gentrificação, ocupação
Saudações, comp@s!
Esse panfleto está circulando com a proposta de acrescentar aos atuais debates sobre as revitalizações urbanas, higienismos e os eventos da Copa 2014 e Olimpíadas 2016. Uma reflexão anarquista sobre o atual contexto do Rio de Janeiro, voltada principalmente para redes de movimentos de resistência, ocupações urbanas e iniciativas libertárias espalhadas pelo mundo afora.
Divulguem!
Genocídio e Espetáculo
Algumas palavras sobre os processos vividos no Rio de Janeiro dentro de uma perspectiva anarquista
O seguinte texto surge de uma reflexão coletiva realizada entre indivíduxs que circulavam na okupação anarquista Flor do Asfalto, que se situa no olho do furacão dos projetos de reurbanização e consequente endurecimento da repressão no Rio de Janeiro. A presente reflexão pretende contribuir, partindo de uma ótica anarquista, para o esclarecimento quanto aos processos de criminalização da pobreza e violência estatal declarada contra os movimentos de resistência rebelados frente a tais projetos. Motivou muito a elaboração desse ensaio o seu poder de acrescentar mais elementos aos debates que já fervem no Rio de Janeiro e outras cidades, para que pessoas que não tiveram a oportunidade de vivenciar em suas próprias peles esta realidade tão particular possam, enfim, respirar um pouco desses ares. Essa iniciativa surge, também, com a intenção de contribuir para a guerra social, já que as estratégias do poder hierárquico já há séculos se reproduzem e se repetem em diferentes regiões e distintas épocas. Afinal, acreditamos que o que hoje se vivencia aqui pode ser nada mais que um estágio avançado dos próprios sintomas das grandes cidades, pelo menos no que diz respeito ao território controlado pelo Estado brasileiro. (mais…)
Filed under: Cidades | Tags: Choque de Ordem, Copa do Mundo 2014, gentrificação, Rio de Janeiro
Mandando brasa nas oportunidades de debate que estão surgindo em BH, dois moradores da ocupação urbana Flor do Asfalto (no Rio de Janeiro), propõem atividade na quinta-feira à tarde. No espaço Ystilingue, antes da Quinta Vadia.

Rio 40 Kaos: Guerra à pobreza!
Bate-papo sobre os processos vividos no Rio de Janeiro. UPP’s. Choque de Ordem. Revitalizações. Copa do Mundo. Olimpíadas. Mobilizações de resistência de tudo que é tipo, arranhando aquele cotidiano-turbo carioca.
Quinta
11/08
17h
Espaço Ystilingue
Edifício Maletta, sobreloja 35 – av. Augusto de Lima c/ rua da Bahia – Centro – Belo Horizonte.
AJUDE A DIVULGAR!

Trazemos partes do texto “Vendavais e Pocilgas”, que avalia a cidade e a Praça da Estação frente ao Mundial de Futebol e o que ocorreu com os espaços públicos de Belo Horizonte.
Quando recebemos os textos, quem o redigiu fez pedido de que publicássemos apenas a primeira e a terceira parte, junto ao apêndice final. “A segunda parte pede revisões de segurança quanto a algumas informações utilizadas”. Continuidades de “Porcos e furacões”, que postamos como material informativo há pouco mais de um mês. Mas já havíamos nos deparado com esses trechos no blog Praça Livre BH, antes.
Esse texto acaba por tecer uma análise enquanto os olhos encontram-se hipnotizados pela luz das tevês que, agora após a Copa, prometem estar mais baratas nas prateleiras diversas.
E as Praças? E as Praias? Veja a seguir um pouco mais dessa novela que não deve acabar. De brinde, alguns links complementares, para reforço das questões de pais e filhos etc:
-Filho de Lacerda e a campanha pelo Código de Posturas de BH
-Blog de Luís Nassif re-aquece discussões sobre os decretos de Lacerda e a concessão à Coca-Cola
Desfrutem.
A.G. & E.P.

“Todos os animais são iguais
mas alguns animais
são mais iguais que outros”
A prefeitura Lacerda não pára de comer merda. Se as pessoas derem uma olhadinha suave no que se transformou a praça para os eventos que começam hoje, constatarão que aquela montagem-ironia sobre “barreira de proteção ao patrimônio” nem exagerou tanto. A praça está justo daquele jeito, com acréscimo das cores dos banners da Coca-Cola (em vez de um stencil do Bunksy), além de muita tralha entre os muros que estão lá instalados.
No furor dessa história toda, recebemos a divulgação de um chamado para discutir “o uso da praça e da cidade de Belo Horizonte em tempos de Copa”, ali mesmo onde se encontram casadas as partes inevitáveis da façanha: o palácio-museu de luxo dos Gutierrez e os muros e ferrarias da estrutura montada pela patroa Coca-Cola.
O flyer está acima, o texto segue abaixo.
A. G.

Esse texto passa por aqui e resolvemos continuar a corrente. E, para facilitar a digestão, indico alguns links que poderiam orientar mais sobre o tema. Um deles é um release caprichado até demais, que tentou contar um pouco sobre as mobilizações que continuam contra os decretos de Lacerda e as missões higienistas da prefeitura de Belo Horizonte. O outro foi matéria publicada num jornal de grande circulação em BH, e inclui mini-entrevista com Fernando Cabral, secretário municipal da regional Centro-Sul.
Esses dois textos foram postados no blog Praça Livre, que tem sido atualizado com o vapor que está acessível, como veículo aberto de informação.
As “novidades” não surpreendem, como afirma o texto que estou lhes indicando mais abaixo. A Coca-Cola aluga BH radicalmente. A prefeitura dá de presente.
Segue o texto.
Desfrutar.
A. G.
Filed under: Censura e Monitoramento, Cidades | Tags: Cidade Situada, Praça da Estação
Vejam que as coisas continuam se aquecendo. Dentre outras iniciativas, chamam para a construção de uma espécie de jornada de atividades na Praça da Estação. Há mais de um mês que o assunto tem sido tópico de várias discussões, na rede ou nos encontros perambulantes por aí – nas ruas, espaços, festas etc.

Além das quatro Praias – que têm sido as ocupações da praça com mais notoriedade midiática -, a Praça da Estação vem abrigando ainda encontros outros, nos formatos que cabem às pessoas dispostas. Saraus, encontros para produção de materiais gráficos, trocas de oficinas, rodas de capoeira, bate-papo… Enfim, uma onda específica que evoca, no seu básico, a necessidade de ocupar a cidade e gozá-la, que jorra questionamentos com “criatividade”, e que quer, ao mesmo tempo, dificultar o trabalho dos que vivem de expropriar espaços e manejá-los sozinhos. Nada mais que fermentar a quebra de um tabu difundido, desde a fundação de BH, entre a maioria dos seus moradores – algo que se sustenta a partir da própria história que veio sendo construída por aqui, há pouco mais de 100 anos: histórias da tranquilidade de nossas tocas, casas e redutos; histórias que raramente se fizeram sair rumo a espaços abertos da cidade para neles instituir meios de discussões, perguntas e tentativas de ações, frustradas ou não; para significá-lo segundo critérios de quem o legitima estando nele, de várias formas. O tema do “público” não se reduz a mera questão de gestão. Diz respeito a como andam nossas vidas numa cidade que queremos vivenciar.
O tabu: encontrar e conversar nas ruas, inclusive sobre os problemas que são nossos. É fácil pensar que isso reforça atitudes como a que quis passar o cabresto na praça, vindas das mãos dos que compõem, há muito tempo, as cadeiras dos carrascos dessas terras. Podemos pensar no quanto tudo isso representa algum tipo de guinada muito peculiar, pois além de fechar tudo que é espaço “cultural” de BH, o senhor prefeito e comparsas têm as estúpidas condutas de quem se vê como donos da cidade. Cremos que não mais, não mais… Pois o que faz disso tudo parte de um contexto especial é justamente o modo como o ambiente das ruas tem sido tomado sem muitas restrições, de um modo festivo, lúdico e ativo. E mais: pelas NOSSAS questões.
Parece que a ditadura da vigília e da higiene-no-branco deixou de passar despercebida, pelo menos numa das escalas dessas ocupações. Essas ondas não morrem na praia. Pelo contrário, querem se alastrar, tomar espaços, incomodar aqueles que estão bem acomodados em seus gabinetes de gestores, sem querer diálogo com ninguém, aparecendo tão-somente nas figuras da polícia e das guardas e dos decretos.
Vejam abaixo o chamado que recebemos.
A.G.
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Outro material informativo do CIDADE SITUADA. Ao compasso das ocupações que estão tomando a Praça da Estação (encontros, saraus, praias, diálogos) em BH, num processo de crítica e renúncia extrovertida, foi criado um blog que está concentrando textos aleatórios, livremente postados. A senha do blog é aberta (consta como primeiro post da casa).
A Praia da Estação já resiste há um mês – e muitos outros projetos pipocam, tomam forma, se fazem, além da Praia. Atravessou as unhas de outros decretos mais, além daquele que proibiu eventos de qualquer natureza na praça. Um deles conceituou e definiu o termo “evento”, dando-lhe as devidas “naturezas” para confirmação do decreto 13.798/09, por si só mais do que vago. Outro intituiu uma comissão burocrática para controle e filtro de eventos na praça – a ressaltar, sem qualquer cadeira para não-especialistas. Segue indo…
O link que lhes passamos consiste numa historinha sobre a Praia:
http://pracalivrebh.wordpress.com/2010/02/10/praia-da-estacao-o-mar-revolto-das-minas-gerais/#respond
O blog Praça Livre BH: pracalivrebh.wordpress.com
Façam proveito.
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