Filed under: Cidades, Movimentos de resistência | Tags: 1968, ativismo, crítica, flashmobs, TAZ
por PABLO GOBIRA

1968, Europa. Talvez seja necessário dizer “França, Paris”, mês de maio. Tal como um texto, esse cenário cita o 1871 francês, da Comuna de Paris, hoje com seus 140 anos. Ambos idosos. Ruas fechadas, barricadas. O que têm em comum? Cenário: cidades.
1999, Estados Unidos da América. Mais especificamente: Seattle. 30 de novembro. Uma bomba de efeito moral explode. Alguém chora de susto e pelos gases de pimenta e lacrimogêneo. Cheire esses gases e experimente para entender. Não. Imagine. Deseje o impossível: imagine que conhece o cheiro do gás de pimenta. Ruas fechadas. Veja os filmes Showdown in Seattle (dirigido pelo Indymedia) e Battle in Seattle (dirigido por Stuart Townsend).
1998-2001, todo o mundo se torna palco de intervenções variadas. Autoconvocadas pela Ação Global dos Povos (AGP), as pessoas se solidarizam com a negação do capitalismo em vários locais do planeta. FMI, Banco Mundial, o grupo dos países ricos, a Organização Mundial do Comércio se reúnem, os da AGP também, mas para atrapalhá-los. Uns chatos! Alguns criticam isso como uma especialização das manifestações. Outros criticam como ações separadas do cotidiano. Milhões de pessoas solidarizadas contra o capitalismo em centenas de países no mundo. (É isso mesmo? Será que essa conta está certa?) Concretamente a maioria das ações – coloridas, lúdicas, divertidas – interagem com o espaço urbano. Vidros de estabelecimentos são quebrados, paredes são pixadas, asfaltos são rabiscados, ruas são transformadas em passeios. Ruas como o fim do caminho do meio.
2001, 11 de setembro. Silêncio. Caça às bruxas. Manifestação do estado de exceção. Tempo de vida suspenso. Tédio. Frustração. Apenas a mercadoria pura e simples pode circular. As mercadorias tensas, que querem se expressar, não podem se solidarizar. O tempo se solidariza com o silêncio. O silêncio vira método e meta do grito. A meta é o mesmo.
2002, começa um tsunami de protestos. Todos queriam se manifestar. Contra a Guerra do Iraque, contra a invasão ao Afeganistão, contra o silêncio. Cria-se o Fórum Social Mundial, o primeiro lugar onde se podia quebrar, pixar, virar um carro da polícia sem ser preso, o primeiro lugar onde se podia atingir a propriedade privada sem ser penalizado. Todos são contra… contra… contra. Ninguém parece “anti” ou “arqui”.
2002, todos queriam que o século XXI tomasse forma. A única forma foi a pausa. As pessoas começaram a fazer protestos sobre tudo e qualquer coisa. Há essa possibilidade. O estado de exceção ensaia uma paródia do estado de direito. Todos têm a liberdade de se organizar via Internet, é mais fácil, mais rápido. Supimpa! Convocatórias são criadas, feitas, protestos tomam forma, acabam-se, pronto.
2002, da quantidade e multiplicidade de enfoques dos protestos, surge o Flashmob como mania.
2002, flashmobs (flash + mobilization) são herdeiros dos happenings (já secular), da blitzkrieg (já oitentona), da situação (já cinquentona) e da Zona Autônoma Temporária (quase trintona), mas apenas como paródia. 1968 ensinou: “não confie em ninguém com mais de trinta”.
2002, as cidades viram escolas de resistência contra – advinhem?! – a cidade. Na cidade se mobilizam contra os carros, contra o ir e vir da mercadoria, contra as roupas, contra o trabalho, contra o controle dos corpos, do gênero, da cultura, do futebol, contra… contra… contra. Logo começam as mobilizações a favor da bicicleta, das sacolas retornáveis de tecido para carregar as compras, a favor do meio ambiente.
2002, todos podem, pelas redes sociais, marcar seu protesto. Um protesto é fruto de uma corrente, forma herdada daquelas cartas que recebíamos em nossas casas há alguns anos.
2002, quem encontrar esta corrente de Nossa Senhora deve fazer 4 cópias por dia durante 60 dias e tudo o que pedires será atendido. Seis donos de um restaurante precisavam de 500 mil reais e conseguiram antes de 60 dias. Os donos de um mercado perderam tudo o que tinham porque quebraram esta corrente. Faça 4 cópias por dia durante 60 dias e publique. Faça seu desejo!
2002, faça seu panfleto com o modelo em anexo e encontre-nos na praça 7 de setembro no dia 22 de março de 2002 para se manifestar contra…
2002, o que ainda é moda e mania logo será substituído por algo menos tedioso. O protesto tedioso é substituído pelo que será frustrante. Sempre teremos novas cores para novas formas de protestar. Algum deles talvez vingue.
2002, a queda dos ditadores no norte da África é considerado pela mídia mundial um flashmob. Flashmob é uma corrente nas redes sociais de Internet que dá certo. As pessoas vão divulgando, passando a mensagem, confirmando presença e estamos prontos para mais um protesto. Poucas pessoas ficam sabendo e as que sabem acabam indo, muitas vezes porque não têm algo mais interessante para fazer. Vira algo muito mais pontual, temporário, que acaba sendo deixado pra lá quando acaba. Semelhante a um passatempo que deixa resquícios na memória do participante.
2002, o protesto permitido e o flashmob (marcado pela Internet) não correspondem aos crimes sociais, perdem o parentesco com o maio de 1968 e as ações anticapitalistas da virada do século XX para o XXI. A cidade pede possibilidade e não permissão.
2002, todas essas ações contagiam pessoas em diversos setores da sociedade: universidades, tribunais, fábricas. O risco diminui, pode-se protestar, pois tudo deixou de comunicar, a radicalidade se espacializou em dispersão. Protestos contra a privatização de praças, a favor da ocupação de lugares públicos, contra a mudança de comunidades de seus lugares tradicionais, contra a copa, contra as olimpíadas e seus impactos. Tudo esparso e absoluto, mas não mais aqui e em outros lugares. Apenas aqui. Aqui se faz, aqui se paga. Chega ao absurdo da possibilidade: uma lei de incentivo a cultura financia um show contra a privatização das praças da cidade. Cidade contemporânea.
2002, último avanço. A marcha das vagabundas. Os mesmos que estavam no protesto de ontem estão no de hoje. Os mesmos 100, 200, 1000, não importa. Os mesmos separados, isolados, mobilizados por redes sociais. Apenas pelas redes sociais. A cidade põe um ponto e dá um basta. Cinto de castidade.
2002, a mídia repete que foi a Internet que tornou capaz tais articulações, da marcha das vagabas até a queda das ditaduras no norte da África.
2002, os protestos se tornam flashmob deixando de ser um crime social para se tornar uma ação social a favor da reforma da cidade. A cidade precisa de obras materiais e imateriais.
2002, os protestos são um lugar de diversão que ampliam o espaço virtual de convocação pela convocação iniciado nas redes sociais. Aparentam ser tão vazios de sentido quanto os seus locais de execução após a diversão. Parece fácil ser horizontal em um parque de diversões e em uma mesa de bar.
2002, cena final: o protagonista perde o fôlego, mas logo se anima novamente, pois sabe que quanto mais protestam, melhor.
Filed under: Cidades, Repressão | Tags: anarquismo, Choque de Ordem, Copa do Mundo 2014, crítica, debate, gentrificação, ocupação
Saudações, comp@s!
Esse panfleto está circulando com a proposta de acrescentar aos atuais debates sobre as revitalizações urbanas, higienismos e os eventos da Copa 2014 e Olimpíadas 2016. Uma reflexão anarquista sobre o atual contexto do Rio de Janeiro, voltada principalmente para redes de movimentos de resistência, ocupações urbanas e iniciativas libertárias espalhadas pelo mundo afora.
Divulguem!
Genocídio e Espetáculo
Algumas palavras sobre os processos vividos no Rio de Janeiro dentro de uma perspectiva anarquista
O seguinte texto surge de uma reflexão coletiva realizada entre indivíduxs que circulavam na okupação anarquista Flor do Asfalto, que se situa no olho do furacão dos projetos de reurbanização e consequente endurecimento da repressão no Rio de Janeiro. A presente reflexão pretende contribuir, partindo de uma ótica anarquista, para o esclarecimento quanto aos processos de criminalização da pobreza e violência estatal declarada contra os movimentos de resistência rebelados frente a tais projetos. Motivou muito a elaboração desse ensaio o seu poder de acrescentar mais elementos aos debates que já fervem no Rio de Janeiro e outras cidades, para que pessoas que não tiveram a oportunidade de vivenciar em suas próprias peles esta realidade tão particular possam, enfim, respirar um pouco desses ares. Essa iniciativa surge, também, com a intenção de contribuir para a guerra social, já que as estratégias do poder hierárquico já há séculos se reproduzem e se repetem em diferentes regiões e distintas épocas. Afinal, acreditamos que o que hoje se vivencia aqui pode ser nada mais que um estágio avançado dos próprios sintomas das grandes cidades, pelo menos no que diz respeito ao território controlado pelo Estado brasileiro. (mais…)
No próximo fim-de-semana, na Associação Comunitária d@s Amig@s de Pereira (ACAP), nos encontramos com participantes do coletivo Proletarizad@s Contra a Corrente. Uma troca de relatos sobre a última década de lutas anticapitalistas e atualidades. Veja a programação abaixo:
PROGRAMAÇÃO::
15h – Não começou em Seattle…
Rememorar a luta anticapitalista autônoma da última década em BH e Fortaleza (histórico de lutas, movimentações, grupos/redes, conjuntura local/global, etc.);
17h – ...não termina nunca, essa porra!
Para uma crítica que venha de dentro dos movimentos ou daqueles que se sentem como parte deles. Análise do atual contexto (crises, copa/olímpiadas, gentrificações, etc.) das formas de resistência: marchas, “geração facebook”, okupações, ilegalismos… Panorama global com enfoque em BH e Fortaleza.
+Piquenique (leve um lanche!)
+Vídeos livres
+Cerveja à venda
+Um dia leve
Como chegar:
De ônibus: 9407, 9412, 4110, 4111, 4501, 4405, 4802A e vários outros ônibus param ali na rua Pará de Minas, muito perto da casa.
De metrô: descer na estação Calafate, atravessar a passarela no sentido Via Expressa e subir, subir, subir. Terá que caminhar um pouco, até perto da igreja Padre Eustáquio, lá em cima.
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VÁ DE BIKE!: a avenida Dom Pedro II é uma boa referência. Tente chegar até ela e seguir até a rua Vila Rica. Suba essa rua até a Pará de Minas.
Onde? Praça da Estação – Hipercentro de Belo Horizonte
Quando? Sábado, 16/01/2010, 9:30
Quanto? De graça!
Venha curtir o sol de verão e se divertir na PRAIA NA PRAÇA DA ESTAÇÃO.
O DECRETO Nº 13.798 DE 09 DE DEZEMBRO DE 2009 do nosso dignissimo prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, proibe que aconteça qualquer tipo de evento na Praça da Estação. A pergunta permanece: a quem interessa que os espaços públicos sejam apenas pontos de passagem e consumo?
Se nos é negado o direito de permanecer em qualquer espaço público da cidade, ocuparemos esses espaços de maneira divertida, lúdica e aparentemente despretensiosa.
Traga sua roupa de banho (bermuda, calção, biquini, maiô, cueca), boias, cadeiras, toalhas de praia, guarda-sol, cangas, farofa e a vitrolinha…
Traga tambores e viola!
Traga comida para um banquete coletivo!
MAIS – DEBATE:
“REVITALIZAÇÃO POR DECRETO”
Há cinco anos, iniciou-se em regiões de da Grande Belo Horizonte um novo processo de higienização urbana, que tem como base elementar a reestruturação de espaços da cidade em consonância com as tendências contemporâneas de uso e desuso especulativo-mercantil das grandes cidades. Além do ostensivo investimento em mecanismos de monitoramento que se espalharam pelos arredores do centro urbano de BH (vide o chamado Projeto Olho-Vivo), tais empreendimentos tendem a sufocar, por vários meios, o encontro espontâneo de indivíduos nas ruas e o livre uso de espaços classificados como ?públicos?. Essas intervenções se definem por moldes dos velhos projetos de gentrificação, característicos de todas as modernas cidades erguidas sob os pressupostos unitários do capitalismo: limpeza de aspecto fundamentalmente classista, projetos infra-estruturais de custos estratosféricos, restauração de pontos turísticos, etc.
Em 09 de dezembro de 2009, foi decretada pela administração da cidade, com assinatura direta do prefeito, a proibição de ?eventos de qualquer natureza? na Praça da Estação (ou Praça Rui Barbosa), um patrimônio público que viveu os primeiros suspiros da cidade. A medida pode assinalar a retomada do que se iniciou em 2005/2006, como corrida ?emergencial? para a conclusão de todas as obras necessárias para que BH possa dar suporte aos eventos da Copa do Mundo de 2014.
Chamamos a todos os interessados para esmiuçar o tema das ?revitalizações? (um termo polido veiculado pelas instituições oficiais) e dos decretos de lei que instauram o deliberado loteamento dos espaços públicos enquanto curtem o sol e a cidade.
A ESCOLHA E SEU VALOR: uma crítica do boicote
Janaete Kyra
“Os nossos véus são máscaras, são marcas que nos identificam enquanto nos escondem, nos aproximam quando nos distanciam, nos fazem querer viver quando nos fazem objetos de hierarquias e trocas de mão-de-obra na sua crise constante do sistema. Nós aceitamos ser criminos@s sociais e inimig@s da economia política, pois é como a lógica do capitalismo nos nomeia ao nos ver com fome de vida e não com a fome de bugigangas. A vida é dura se queremos vivê-la.” (Amig@s da próxima insurreição, Segundo Manifesto Susto´s)
“Será que não vai chegar o dia de se pagar até a respiração? Pela direção que tudo está tomando, eu vou viver pagando o ar de meu pulmão.” (Siba e a Floresta, Ser)
Eu diria, a princípio, que considerável parte da discussão sobre a prática do boicote mostra-se, dentro de suas formas possíveis, bastante delicada. Muito antes de consistir numa iniciativa que contém nela mesma respostas acabadas ou mesmo verdades rigorosas a respeito das tramas de nossas relações, tal prática carrega em muito de si leituras e críticas limitadas, pouco suficientes quanto a seus desdobramentos, motivações e interesses.
Muito do que se informa atualmente sobre esse gênero de escolha consumista tem suas bases num posicionamento contrário ao processo de expropriação particularmente instalado nas relações sociais de produção e reprodução da vida. Algo com que podemos muitas vezes deparar é justamente a postura de abdicação ao consumo de alguns produtos dispostos no tráfego mercantil por razões éticas e/ou morais adotadas frente ao modo como essas coisas (ainda) desejadas são trazidas à luz do mundo. Tem-se como parâmetros para essa opção por realização no objeto, na maioria dos casos, os métodos empregados por um organismo qualquer para alcançar sua meta produtiva ou uma discordância moral em relação ao que o mesmo produto representa socialmente. Em resumo: as múltiplas variantes imagináveis do boicote são questão fundamentalmente voltada para uma crítica da sociedade de consumo, entendida como a prática diária de troca abstratamente equivalente. (mais…)
