A ESCOLHA E SEU VALOR: uma crítica do boicote
Janaete Kyra
“Os nossos véus são máscaras, são marcas que nos identificam enquanto nos escondem, nos aproximam quando nos distanciam, nos fazem querer viver quando nos fazem objetos de hierarquias e trocas de mão-de-obra na sua crise constante do sistema. Nós aceitamos ser criminos@s sociais e inimig@s da economia política, pois é como a lógica do capitalismo nos nomeia ao nos ver com fome de vida e não com a fome de bugigangas. A vida é dura se queremos vivê-la.” (Amig@s da próxima insurreição, Segundo Manifesto Susto´s)
“Será que não vai chegar o dia de se pagar até a respiração? Pela direção que tudo está tomando, eu vou viver pagando o ar de meu pulmão.” (Siba e a Floresta, Ser)
Eu diria, a princípio, que considerável parte da discussão sobre a prática do boicote mostra-se, dentro de suas formas possíveis, bastante delicada. Muito antes de consistir numa iniciativa que contém nela mesma respostas acabadas ou mesmo verdades rigorosas a respeito das tramas de nossas relações, tal prática carrega em muito de si leituras e críticas limitadas, pouco suficientes quanto a seus desdobramentos, motivações e interesses.
Muito do que se informa atualmente sobre esse gênero de escolha consumista tem suas bases num posicionamento contrário ao processo de expropriação particularmente instalado nas relações sociais de produção e reprodução da vida. Algo com que podemos muitas vezes deparar é justamente a postura de abdicação ao consumo de alguns produtos dispostos no tráfego mercantil por razões éticas e/ou morais adotadas frente ao modo como essas coisas (ainda) desejadas são trazidas à luz do mundo. Tem-se como parâmetros para essa opção por realização no objeto, na maioria dos casos, os métodos empregados por um organismo qualquer para alcançar sua meta produtiva ou uma discordância moral em relação ao que o mesmo produto representa socialmente. Em resumo: as múltiplas variantes imagináveis do boicote são questão fundamentalmente voltada para uma crítica da sociedade de consumo, entendida como a prática diária de troca abstratamente equivalente. (mais…)