Dia Sem Compras


Relato do “Dia Sem Compras” de 2000 by D. Graça
dezembro 4, 2008, 3:27 am
Filed under: Censura e Monitoramento

Segue o relato feito pelo CAP do “Dia Sem Compras” de 2000, tal ação acabou com o confronto entre as pessoas que participavam da ação com os seguranças do shopping.

Se alguém tiver fotos dessa ação, favor entrar em contato.

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Dia Sem Compras:
Um dia para pensar o consumo,
Uma data da “violência privada”

Vou tentar ser breve neste relato, uma vez que este tem como objetivo
estimular a solidariedade para com as pessoas que mais sofreram com os
agressões por parte dos seguranças do Shopping Cidade (na Rua Rio de
Janeiro, entre as Ruas Tupis, Goitacazes e São Paulo – Belo Horizonte/MG)
no dia 23/12/2000.

A manifestação tinha por objetivo ser pacífica. Ela é conhecida como “Dia
Sem Compras”, e este foi o segundo ano em que ela aconteceu em Belo
Horizonte. O objetivo em se escolher fazer essa manifestação em frente ao
Shopping Cidade, é o fluxo de pessoas que o centro de Belo Horizonte
proporciona. Apenas passando pelo shopping, são 160 mil pessoas durante
APENAS o dia 23/12 todos os anos, fora outras pessoas que estão passando
pelo centro de Belo Horizonte.

A manifestação em Belo Horizonte estava marcada para 12:00, horário do
almoço. O principal motivo: haveria distribuição de comida/suco/etc..
Outros eventos estavam programados, como distribuição de panfletos,
cafezinho/biscoito/balas na “Barraca da Reflexão”, palhaços e “porcos
consumistas” acompanhados de “consumidores sem rosto” andariam pela porta
do Shopping Cidade conversando com as pessoas sobre o consumo. Performances
também estavam marcadas de acontecer.

O primeiro grupo chegou em frente ao Shopping Cidade às 12:30 e se
juntaram a outr@s indivídu@s que já estavam esperando. A panfletagem se
iniciou junto a uma enriquecedora discussão junto aos trabalhadores
informais que a princípio achavam que estávamos “tentando atrapalhar as
vendas deles” (e na verdade era praticamente o contrário).

13:00 horas chegou a “Barraca da Reflexão” – apesar de já quando
companheir@s chegaram às 12:30 já está havendo distribuição de cafezinhos –
que nessa mesma hora começou a ser montada e enfeitada com balões em um dos
cantos do passeio, de forma que não atrapalhasse o fluxo de pessoas.

Aproximadamente às 13:30, os seguranças do Shopping Cidade começaram a se
“organizar” em frente a porta do mesmo, como um batalhão da tropa de
choque, com seus “cacetetes” em punho. Os manifestantes se posicionaram em
volta da barraca, e quem estava tirando fotos, foi estimulado a cobrir a
‘cena’. Alguns manifestantes dizem que o chefe da segurança disse algo
como: “Vocês tem um minuto para sair da porta!” E logo depois partiram para
cima de todos, após o comando: “Pode tirar todos daqui!”. Não somente
manifestantes, mas clientes do Shopping Cidade que saiam no momento do
local tomaram cacetadas, pontapés e socos no rosto.

Companheir@s ficaram desesperad@s. Haviam companheir@s chorando, gritando,
caindo no meio da rua. Companheiros com o braço inchando, costelas
quebradas, garotas com marcas de cacetadas no peito, no ombro. Clientes do
shopping com crianças no braço também apanharam. Essa cena foi bárbara,
principalmente por que os manifestantes e os clientes do shopping não
tinham como se defender, muitos tentaram se esconder das cacetadas, mas
acabavam caindo, outros tentavam utilizar mochilas, até uma lata de lixo
que estava no local foi usada, para não serem espancad@s. Tudo isso pouco
ajudou!

E s t r a n h o ,   o u   E s p e r a d o ?

Podemos notar diversos pontos importantes durante essa parte da
manifestação, um deles é que o centro de Belo Horizonte (o local da
manifestação) possui cerca de 40 policiais em dias ‘distantes’ do natal
(digamos: novembro, outubro), mas em dezembro o policiamento dobra, então o
número de policiais passa a cerca de 80. Pois bem, devo deixar claro que
não estou reivindicando “proteção policial”, mas é estranho olhar para os
dois lados da rua, durante as agressões e não haver nenhum policial
presenciando o ocorrido, ainda mais com um posto policial de observação na
esquina onde estava havendo o protesto (Rua Tupis).

Um outro ponto que afirma o quanto estranho é esse acontecimento, é que no
“Dia Sem Compras” de 1999, havia muitos policiais na porta do Shopping
Cidade. Bem, nada mais pode ser dito, mas companheiros viram em momentos
antes da pancadaria, uma policial entrar no shopping, e depois sair. Tudo
‘aumenta’ a suspeita de que (o Shopping Cidade) não queriam a polícia
presenciando o ocorrido, o que foi interessante para eles, uma vez que
quando a polícia chegou (minutos depois da barbárie), os manifestantes
foram agreditos verbalmente quando tentavam falar, e os seguranças do
shopping foram cumprimentados como se fossem (provavelmente são) amigos
íntimos dos policiais.

Notamos também a não-identificação dos seguranças. A mesma atitude tomada
pelo “batalhão de eventos” da polícia militar, encarregado de dispersar a
cacetadas, coices de cavalo, mordidas de cães, e bombas diversas, os
manifestantes nas ruas. Esse foi mais uma das indicações de que os
seguranças iriam nos agredir.

J u s t i ç a ( ? )

Alguns dos manifestantes, e clientes do Shopping Cidade entrarão na
justiça contra a agressão dos seguranças e contra o Shopping Cidade. Mais
informações sobre o andamento do processo poderá ser visto na página
http://www.diasemcompras.com.

Será entregue um relatório a cordenadoria de direitos humanos de Belo
Horizonte, para que se consiga mais apoio e divulgação desse massacre
promovido pelo Shopping Cidade.

M a i s   M a n i f e s t a ç ã o

Após toda a confusão, e a saída da polícia do local, o advogado que está
apoiando os manifestantes no caso, foi até a administração do Shopping
Cidade (junto ao chefe da segurança, ao gerente, etc.) e comunicou que
entraria na justiça contra o shopping, além de comunicar que voltaríamos
para a porta do Shopping Cidade para continuar o protesto.

E foi o que aconteceu, estávamos com cerca de 15 kilos de macarronada, 10
litros de suco, além de pipoca, balas, pirulitos, biscoito, e outros doces
para distribuir.

Houve então batucada, e muita conversa com as pessoas que estavam
passando, além de “pesquisas” sobre o consumo e a distribuição de alguns
poucos panfletos e café restantes, uma vez que os seguranças haviam
quebrado garrafas térmicas, sujado panfletos, etc..

Enfim, a manifestação terminou bem, apesar de sabermos que estávamos
marcados daqui para frente, e também sabermos que temos a obrigação de
comunicar esses fatos para todas as pessoas a quem temos acesso.

S o l i d a r i e d a d e   a o s
M a n i f e s t a n t e s   e   B o i c o t e
a o   S h o p p i n g   C i d a d e

Os “manifestantes”, como os venho chamando, eram em sua maioria:
trabalhadores, estudantes, desempregados, como vocês que estão lendo este
e-mail/relato. Todos nós (nós e vocês que estão lendo) podíamos estar lá,
nos manifestando contra o consumo exagerado das pessoas, contra a
transformação das pessoas em “CONSUMIDORES e CONSUMIDORAS” e não em
pessoas. Aqueles e aquelas que estavam na porta do Shopping Cidade dia
23/12/2000 eram pessoas comuns que estão cansadas do massacre (não apenas
de cacetetes) por parte da sociedade capitalista, o massacre provocado pela
miséria, pela fome, pela indiferença das pessoas nas ruas. Viramos números,
consumidores/consumidoras, “máquinas biológicas” acostumadas a apenas
repetir e NUNCA criar. Somos tudo, menos humanos!

E é por isso que é importante juntarmos agora nossas forças contra mais um
“grupo” de exploradores que nos massacra dentro desta sociedade. Pedimos
aqui, para que vocês que estão recebendo este e-mail, que manifeste sua
revolta contra esse shopping que através de seus seguranças, agrediu
fisicamente e moralmente pessoas que estavam apenas pedindo por seus
direitos (além de agredir também seus próprios clientes), o direito de
criar, o direito de ser livre, o direito de ser HUMANO!!!

Se você quer manifestar seu apoio, envie um e-mail de repúdio ao Shopping
Cidade (e-mail do Shopping Cidade: mkt@shoppingcidade.com.br), e ainda
repasse este e-mail para tod@s que você conhece. Não podemos deixar em
branco o dia 23/12/2000. Um dia que havia sido preparado para ser uma festa
contra o consumo, um dia de reflexão, mas que acabou se transformando em um
dia de agressão, violência e covardia.

Você que mora em Belo Horizonte, e conhece o Shopping Cidade, a partir de
hoje não frequente mais esse lugar. Se você o fizer, estará contribuindo
com várias empresas, que contratam “pessoas” para “guardar” seu patrimônio
de pessoas como eu e você (e por que não?), que estão cansadas de enxergar
um futuro em que nós e nossos filhos estarão ACOSTUMADOS com a distância
entre as pessoas, falta de personalidade, e com a agressão por parte dos
“nossos representantes”.

Diga NÃO ao controle corporativo!
Diga NÃO aos opressor@s do povo escondid@s em suas “máscaras impessoais”!
Diga NÃO ao Estado!

Vamos estreitar as nossas relações e boicotar os “DONOS” do mercado!

Um grande abraço a tod@s;

CAP
(Um dos grupos que participou da manifestação)


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