Dia Sem Compras


Para um debate sobre o boicote by D. Graça
dezembro 24, 2008, 4:50 am
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A ESCOLHA E SEU VALOR: uma crítica do boicote

Janaete Kyra

“Os nossos véus são máscaras, são marcas que nos identificam enquanto nos escondem, nos aproximam quando nos distanciam, nos fazem querer viver quando nos fazem objetos de hierarquias e trocas de mão-de-obra na sua crise constante do sistema. Nós aceitamos ser criminos@s sociais e inimig@s da economia política, pois é como a lógica do capitalismo nos nomeia ao nos ver com fome de vida e não com a fome de bugigangas. A vida é dura se queremos vivê-la.” (Amig@s da próxima insurreição, Segundo Manifesto Susto´s)

“Será que não vai chegar o dia de se pagar até a respiração? Pela direção que tudo está tomando, eu vou viver pagando o ar de meu pulmão.” (Siba e a Floresta, Ser)

Eu diria, a princípio, que considerável parte da discussão sobre a prática do boicote mostra-se, dentro de suas formas possíveis, bastante delicada. Muito antes de consistir numa iniciativa que contém nela mesma respostas acabadas ou mesmo verdades rigorosas a respeito das tramas de nossas relações, tal prática carrega em muito de si leituras e críticas limitadas, pouco suficientes quanto a seus desdobramentos, motivações e interesses.

Muito do que se informa atualmente sobre esse gênero de escolha consumista tem suas bases num posicionamento contrário ao processo de expropriação particularmente instalado nas relações sociais de produção e reprodução da vida. Algo com que podemos muitas vezes deparar é justamente a postura de abdicação ao consumo de alguns produtos dispostos no tráfego mercantil por razões éticas e/ou morais adotadas frente ao modo como essas coisas (ainda) desejadas são trazidas à luz do mundo. Tem-se como parâmetros para essa opção por realização no objeto, na maioria dos casos, os métodos empregados por um organismo qualquer para alcançar sua meta produtiva ou uma discordância moral em relação ao que o mesmo produto representa socialmente. Em resumo: as múltiplas variantes imagináveis do boicote são questão fundamentalmente voltada para uma crítica da sociedade de consumo, entendida como a prática diária de troca abstratamente equivalente.

O que é normalmente ignorado quando evocam a “necessidade” do boicote é justamente o fato de – anteriormente ao momento em que o dito produto está exposto nas prateleiras dos supermercados, farmácias, igrejas, escolas, sex shops etc. – ele responder imediatamente a um processo muito mais amplo e complexo inscrito na mercadoria, processo que tem seu ponto de tensão na exploração da mão-de-obra produtiva, sua alienação dos meios de produzir elementos necessários à sobrevivência e no assalariamento do trabalho neles empenhado. O boicote volta-se estritamente para o ato de consumo, ofuscando a crítica viável e necessária dos aspectos produtivos das relações cotidianas. Vejo que essa limitação distancia o praticante do boicote da possibilidade de tomar essas dinâmicas pela raiz e desvendá-las em suas partes mais recônditas. A mercadoria persiste na reza de seu lema: no cassino global, não se encontra o que deseja, deseja-se o que é encontrado.

Do trabalho alienado, suas implicações e desenlaces

“Nenhuma casta dominante viveu, em toda a história, uma vida tão miserável e não livre como os acossados executivos da Microsoft, Daimler-Chrysler ou Sony. Qualquer senhorio medieval teria desprezado profundamente essas pessoas. Pois, enquanto ele podia se dedicar ao ócio e gastar sua riqueza em orgias, as elites da sociedade do trabalho não podem permitir nenhum intervalo. Mesmo fora da Roda-Viva, eles não sabem fazer outra coisa consigo mesmos a não ser infantilizarem-se. Ócio, prazer intelectual e sensual lhes são tão estranhos quanto o seu material humano”. (Grupo Krisis, Manifesto Contra o Trabalho)

Algo repetido inúmeras vezes e apreendido como fórmula pelos pronunciamentos do que ainda restou de uma esquerda caduca, sabemos que um traço específico do modo de produção capitalista é aquele que, pode-se afirmar, reduz o ser humano que se encarcera em suas cadeias de troca à condição de mercadoria. Isto é, num mundo mediado por coisas, o homem é coisa que se relaciona com coisas, troca sua força corporal, sua potencialidade de fazer tocando o que está ao seu redor (pessoas e objetos), como elemento igual para satisfazer necessidades que em muito são-lhe externas, escapam ao ser objetivo que ele constitui. Essas coisas atuam como imagens invertidas das seguranças próprias da “realidade” reproduzida do cotidiano, no sentido de que as fábulas que inoculamos entre nós e o mundo que objetivamos faz de nossas relações carentes de sua materialidade imediata. Afora isso, as coisas produzidas e o corpo que as produz assumem um caráter equivalente na troca, adquirem – por nada mais que uma abstração relacional com o mundo – a função social de valor de troca, que faz com que dois quilos de farinha supram de modo igual, na troca, a necessidade de uso de um chapéu. Valorizados como quantitativamente iguais, qualificados como nada. Durante isso tudo, o corpo que produz, que se dedica ao suplício consentido de seu tempo e disposição vitais em nome da aquisição do salário (nesse momento, uma condição elementar de sua sobrevivência no mundo e de seu potencial de se abarrotar de outras coisas mais que estão “oferecidas” no ciclo do consumo) dá ao mundo um resultado produtivo quantitativamente excedente, na mesma medida em que é usurpado, também, de parte considerável de cada uma daquelas coisas que produziu. As diversas faces do poder hierárquico, faces tão-somente coercitivas , vão diretamente alvejar o corpo, disciplinar seu movimento no tempo e no espaço, decretar e preservar noções espacial-temporais absolutas, padronizar funções e formas. É assim que as potencialidades do corpo, da fruição desejante do meio e das relações que construímos diariamente (nele e junto a ele), se restringem à necessidade de sobreviver e acumular as tralhas que preenchem os louvores devotados da sociedade de massa. No dia-a-dia do capital, a busca por momentos vitais dá mãos, com certa “naturalidade”, ao ditado maior da vida precarizada: “Quanto vale?”.

O trabalho é mais uma esfera separada da vida, e essa afirmação está seguramente em dissonância com aquelas que captaram em Marx uma suposta natureza humana do trabalho. A despeito de suas toscas leituras dos textos marxianos, é bastante claro o fato de que já é pretensão suficiente querer detectar e afirmar para as atividades humanas uma essência inata ou uma natureza lógica palpável. Pode-se dizer que Marx inegavelmente falou da posse do próprio corpo pelo homem, aliás, como força de trabalho, um recurso natural-biológico que o ser humano possui. Como qualquer atividade que se separa dos desdobramentos efetivos do desejo e que se afasta da dimensão de sua totalidade, o trabalho compõe uma auto-prática da alienação, logo que é adotado como fim-em-si justificado ou “natural”. Imersa em dias em que pulsões de vida são invariavelmente impedidas, a humanidade, pretensa “senhora e proprietária da natureza”, prossegue sua marcha adiante, mesmo que a idéia de progresso – essa risível “dádiva” de toda uma trajetória histórica ocidental – já tenha realizado enforcamento declarado de suas mágicas promessas. A felicidade e a iluminação civilizadas têm enxertados em si seus preços e sacrifícios: são ambas muito caras e, sem dúvida, insaciáveis. Sua garantia é categórica: marasmo absoluto, cansaço periódico (física e emocionalmente), vazio criativo, mas também a possibilidade de acessar as bugigangas da tecnocultura industrial, esse mesmo acúmulo de coisas que sempre se acentua assim que o que é produzido e consumido se torna, com muita facilidade, descartável.

A ideologia do trabalho – sustentada tanto por vertentes da esquerda ortodoxa quanto pelos liberais tradicionais – descartou das atividades humanas, de um modo impressionante, exatamente sua característica ativa. A perspectiva da tomada do Estado para a consolidação do projeto revolucionário quadrado de uns e do reformismo senil de outros demanda o culto político desse tipo de decadência, pois apenas o jugo de algumas camadas sociais à determinação das atividades produtivas estabelecidas, apenas a perpetuação da extração de excedentes (seja por parte de governos, ONG´s, projetos de pesquisas acadêmicas ou o que for) poderiam definir de fato a dominação entre classes. A luta de classes dos viúvos do marxismo ou dos paranóicos liberais prefere a todo instante manter seu anacronismo imutável no tempo, falar de um proletariado aos moldes daquele que perambulou pelos becos europeus do século XIX, e simplesmente rejeitar o fato de o século XX ter sido tempo de conquistas das reivindicações mais corriqueiras do discurso trabalhador do fim do século anterior; com a vinda à tona, em alguns países, do estado de bem-estar social, muitos dos que batiam ponto e rodavam parafusos puderam garantir seu acesso aos bens de luxo produzidos no e para o mercado espetacular. A massagem no ego trabalhador ocorre no exato instante em que ele também pode se gabar de poder se encharcar da superabundância que a economia mercantil proporciona por meio do castigo de seus couros. Grandes conquistas do trabalho: 1) ajustes salariais; 2) benefícios institucionais; 3) feriados; 4) folgas aos domingos, etc. Com esse pacote, o trabalhador pode se empanturrar – à vontade ou ao limite de suas rendas – com os artefatos técnico-industriais à mostra nas vitrines, pompa almejada que ele jamais toca, não sabe para onde vai, de onde veio, como surgiu, além de poder se dedicar completamente a um tédio que ele mesmo elege para dias de folga e, então, reabilitar o corpo moído ao longo de uma semana inteira. Esta perspectiva não convoca a vida cotidiana para a crítica, portanto tem sempre na boca um cadáver que já fede. De forma alguma esses apologistas do desmiolamento e da frieza sobreviventes se conciliariam com algo que se mostra bastante óbvio nos tempos de hoje: sobreviver tem, até o presente, nos impedido de viver. É por isso que se deve esperar muito da impossibilidade de sobreviver, das dificuldades próprias das rotinas vazias que retomamos assim que os dias se reiniciam. Essas dificuldades têm se tornado tão mais evidentes quanto a única escolha que o conforto e a superabundância dos elementos da sobrevivência nos deixam: o suicídio ou a subversão radical da vida cotidiana – esta última podendo se manifestar histórica, pontual ou pessoalmente.

Já é chegado o momento de admitir um diferente norteamento que a luta de classes assume desde há algum tempo: configura-se como uma luta por fazer vivas na subjetividade as situações que, em potencial, estariam mergulhadas no tempo morto mercadológico. Trata-se, por sua vez, de uma luta pela reapropriação do tempo desperdiçado nos lances da subvida ordinária, pelo desencadeamento das possibilidades totais de ser. Fácil concluir que a vida social tal como ela se desenvolve nos dias de hoje empreende caça intransigente aos desejos, aprisiona os corpos na inviabilidade de serem para si próprios. Isso pode ser percebido pelo pouco que nos resta de tempo para pensarmos em nós, refletirmos sobre as condições de existência em que estamos metidos e, através de tudo isso, efetivarmos o intercâmbio coletivo dos dilemas da sobrevivência. Ao mesmo tempo, desejos são ininterruptamente criados e jogados de encontro a nós, ao passo que vários outros são interditados pelos recursos dos cassetetes do Estado, dos halopáticos antipsicóticos, das orações dos dias sagrados, do falecimento gradual nas linhas de produção ou da morte sumária no aborrecimento confortável da vida privada. O discurso unificado da forma social contemporânea diz que o mercado sempre tem em mãos cada fatia de desejo fragmentário. Arque com isso ou morrerá desalentado.

O boicote: suas faces reformistas, sabotadoras e subversivas – coerências e contradições presentes

O segredo domina este mundo, e em primeiro lugar como segredo da dominação. Segundo o espetáculo, o segredo não seria mais que uma necessária exceção à regra da informação abundantemente oferecida por toda a superfície da sociedade, do mesmo modo que a dominação, neste ‘mundo livre’ do espetacular integrado, se reduziria a não ser mais que um Departamento executivo ao serviço da democracia. Mas ninguém acredita verdadeiramente no espetáculo. Como aceitariam os espectadores a existência do segredo, que garante, por si só, que não podem gerir um mundo do qual ignoram as principais realidades se, a título extraordinário, se lhes pedisse verdadeiramente a sua opinião sobre a maneira de preceder? É um fato que o segredo não aparece a quase ninguém na sua pureza inacessível, e na sua generalidade funcional. Todos admitem que haja uma pequena zona de segredo reservada aos especialistas; e, para a generalidade das coisas, muitos acreditam estar no segredo.” (Guy Debord, Comentários sobre a sociedade do espetáculo)

Vale reforçar, o boicote, na maior parcela de sua argumentação prática, consiste em escolha similar aos processos da vida consumista. E esse tipo de afirmação de maneira alguma equivale a dizer que seu foco crítico é necessariamente estéril ou ineficiente. Na verdade, para sabermos algo quanto à efetividade do ato, penso que deveríamos submetê-lo ao peso das questões possíveis de serem colocadas no seu entorno. Vários são os aspectos das iniciativas atuais contra o mundo do mercado que se mostram incapazes de ir além dos fundamentos superficiais desse mesmo mundo, pelo simples motivo de muitas delas não visarem a confrontar diretamente o caráter sócio-relacional da reprodução da vida. Quer dizer, antes de mais nada, o capital, sua veia vital, consiste numa gama de relações sociais cujos pontos nevrálgicos se manifestam no momento de produção das coisas. A partir disso, é tornado necessário aquilo que outrora não fora, aquilo que não compunha inevitavelmente uma exigência para a continuidade da vida, enquanto algo semelhante a uma chantagem da sobrevivência é perpetrado de forma rígida. Sem muita pretensão de fazer uso de aforismos universalizantes, podemos dizer que a relação enfeitiçada que encobre a crueza instantânea dos fenômenos e desdobramentos diários continua valendo-se como catalisador da naturalização dessas tramas (nada mais que relações físicas entre coisas físicas socialmente erigidas que, ainda assim, adquirem aparência de relações naturais). Os segredos de um mundo que já negou muito daquela milenar aspiração idílica, que não mais segue suas profecias com afincos exagerados, tendem a se pronunciar pela irresistibilidade das determinações postas: a única forma de se conseguir viver é a que já foi ditada pela herança moderna. Tateia-se a objetividade do mundo quando se estranha nele. Não há, portanto, tangenciamento qualquer, apenas o tom da fantasmagoria suprema buscando reger o afastamento de tudo referente a tudo, de todos em relação a todos.

A política dos desejos – essa que só pode se debruçar no desejo de, na radicalidade teórico-prática, transplantar a política –, capturada para o lucro, empalhou-se e transubstanciou-se nos entretenimentos barateados do cassino global. A política separada declara, nesse sentido, sua vingança máxima: o prazer é diretamente proporcional à corrupção e deve, pois, ser expurgado dos tempos ou jogado para trás dos coeficientes iguais de troca. Superabundância assegurada, desejos domesticados. O princípio orientador do boicote respeita irrestritamente essas determinações, ou seja, deixa de acusar, em muitos dos casos, a perenidade dos desejos construídos em meio ao fetichismo geral e não torna ativo o que poderia ser o viver não-mediado desses desejos. No limite, deve-se agarrar a bases éticas do consumo para alardear a urgência de um mercado humanizado e aberto, rejeitando, assim, os pilares produtivos que engatam esse tipo de relação esclerosada com o meio, seus recursos e corpos vivos que os constróem. A vida totalizada é trocada como elemento condicional pelas garantias da sobrevivência fragmentária no mercado; o poder separado, diluído na intimidade dos vínculos, espalhado pelas mais expressivas ou inexpressivas instituições humanas, tem seu paroxismo no agenciamento necessário que as instâncias “maiores” realizam para o controle do gozo dos corpos. Isso pode explicar o fato de as investidas publicitárias sempre lançarem mãos da multiplicidade de cores artificializadas que enformam a narrativa da sobrevivência – um cartão de crédito é correlato ao sorriso, tal como o trabalho é sinônimo de segurança quanto à realização pretendida (condição necessária para a consolidação da troca esquizóide que fomenta o “sistema” produtor de mercadorias). Num mundo realmente invertido, o verdadeiro é um momento do falso.

Especificidade latente do boicote está na ética que o circunscreve. O abandono de uma escolha particular desemboca na adoção de uma escolha consensuada, uma definição comunitária de verdades de uso das coisas, sobre o que é adequado a ser consumido, a despeito do “como” elementar de sua produção que permanece intacto. Embora exprima, desde já, um passo, essa espécie de consumo ético mantém-se inteiramente alinhada com os ditames produtivos, dependente das ofertas prontas e frescas do mercado. A autonomia ressaltada nesse tipo de postura ata-se às modas vendáveis do momento. Isso faz do boicote um ato reformista no sentido de que ele demanda uma construção de representações éticas do produto, produto este que já está esvaziado desde sua gênese dessa suposta ética representada. A corporação que devasta a Amazônia ou outras reservas naturais é a mesma que produzirá suas propagandas em material reciclado, que pronunciará mediante esse mesmo material alguma pompa do ecologicamente-correto comercializável. A mesma empresa que explora mão-de-obra semi-escrava em locais mundialmente pouco visíveis concentrará investimentos em ondas publicitárias ocupadas com lemas de tolerância, igualdade e higiene da vida média contemporânea. O panfletarismo megalomaníaco das obras de modernização das grandes cidades jamais deixaria de ocultar a repressão policial que a embasa, o tipo de limpeza engendrada sob a sombra de suas cortinas, as migrações de pessoas compelidas com o recurso dos cassetetes e em nome de uma idéia prática (pré-construída e instituída) do moderno.

Se podemos dizer que há uma ética da forma social predominante, nota-se que ela atrela-se invariavelmente ao poder hierárquico, sobre o qual não detemos e nem podemos deter qualquer tipo de controle, em suma, em relação ao qual vivemos forçosamente estranhados. A única verdade do poder separado é se consumar enquanto verdade unívoca que destrói as múltiplas verdades, inverdades ou a-verdades outras que podem existir e se trocar simultaneamente. Enquanto isso, a atitude cômoda de adentrar supermercados e ali se esbaldar da variedade de coisas – simbólica e logotipicamente – diversas não passa pelo crivo da crítica da vida cotidiana, da mesma maneira que fica desapercebido enquanto ato da separação. O mercado atendeu ao chamado, supriu demandas, bastando a partir de agora definir a dicotomia do que é eticamente “bom” ou “mau”, “certo” ou “errado”, “atual” ou “obsoleto” – um reducionismo gritante no que diz respeito ao conceito de ética, embora ainda próximo demais do que dizem as morais concebidas. Esse parâmetro de boicote corre em busca da reforma das formas de produção por não atentar para as substâncias mais cruciais das relações produtivas. Conforma uma iniciativa de fora para dentro que deixa de vislumbrar para o próprio meio de trabalho ocupado pelo consumidor (assalariado ou não) uma ambientação suscetível à sabotagem.

Já é um tanto óbvio o reconhecimento de que as contradições mesmas embutidas na lógica do trabalho alienado se pulverizam para dimensões outras da vida. Além do estreitamento do tempo possível de ser voltado para as atividades que de fato compõem a auto-formação do sujeito, o cumprimento de cargas horárias predeterminadas por um regimento qualquer de produção é a própria expressão da vida dedicada exclusivamente à sobrevivência. As alternativas frente a isso costumam ser simples: morcegagem, uso extensivo da infra-estrutura que o meio oferece (impressões, navegações virtuais, computadores, livros, alimentos, etc.), a demora quando da ida ao banheiro, leituras de interesse próprio em pontos-cegos do escritório, entre muitos outros. Há, inclusive, os que, trabalhando em caixas de estabelecimentos, tiram o acréscimo de seu saldo dali mesmo. Sabotar o trabalho consiste num parâmetro de subversão repleto de cinismo obediente, movido pela ânsia de se apropriar, numa circunstância singular, do tempo expropriado nas linhas produtivas e bizarramente tornado tempo morto no produto. A questão prima por agora é avaliar o quanto, no discurso pelo boicote, esse artifício estratégico é relegado ao desprezo, muito embora ainda possamos concluir que a iniciativa mais ousada seria não trabalhar, não se atrelar aos fichamentos jurídicos do Estado, não responder pelos rombos diários de tempo vital aos quais nos sujeitamos. No caso do trabalho carteirado, algo de bastante previsível se insinua: não há tempo nem ânimo para tocar as coisas, dizer para si mesmo quem você é, de sorte que o que pode livremente ser feito é afirmar a tudo e todos e negar a si próprio. A sabotagem se vale como bomba incendiária do regime de trabalho, faz brincadeira no seu interior, transita por ele e nega sua semântica do sobreviver, captura seus recursos para fins externos aos condicionamentos de suas leis e recusa o que confere sentido lógico para o estar no mundo. Ainda que o trabalho informal impere na era presente, o mito único do emprego prevalece. Os percalços que acometem o indivíduo que procura por uma vaga útil na jogatina produtiva são tidos como a aberração social por excelência, à medida que o que se esconde no seio de suas normas subsiste na blindagem do segredo. Se hoje conseguir um emprego tem sido façanha complicada como nunca, o emprego “conquistado” continua sendo demasiadamente chato.

Outras perspectivas do boicote podem se justificar de outras formas. Despontam como parte de um corpo de estratégias de sobrevivência capazes de realmente aliviar os fardos contidos nas mazelas diárias. Exemplo disso pode ser a alternativa do furto, ou melhor, da reapropriação de produtos. Não raramente, armam-se mutirões de reapropriação para o desfrute coletivo ou individual (livros expropriados podem ser revertidos para o acervo de uma biblioteca coletiva aberta, tal como parte dos alimentos “resgatados” de um supermercado pode tanto abastecer uma lanchonete autogerida quanto complementar os pratos de um banquete em praça pública) . Essa via de ação pode ser colocada como um não-reconhecimento malandro dos discursos instituídos do Direito, uma inversão da autoridade das leis que sustentam a propriedade privada, ao mesmo tempo em que é, também, um facilitador de acessos. Revela-se como a situação criada para que o valor de troca atribuído às mercadorias sejam convertidos imediatamente em um valor de uso auto-definido, ou seja, um momento simbólico de implosão das cifras monetárias que mediatizam o uso direto de alguns recursos materiais necessários que não alcançamos. A criação dessas situações visa, no seu básico, a fazer do espaço tedioso dos estabelecimentos de compra um palco de aventuras e riscos que se vinculam intimamente a uma perspectiva subversiva teorizada e prática. Porém, o argumento quanto a isso se mostra sempre tão fraco e abstido de substância quanto foi dito logo no início deste texto. Embora seja ato louvável e prazeroso, não toca o casco das estruturas existentes e, ademais, cria demanda consumidora no mercado, de modo que não se aponta para o âmago dos desejos mercadologicamente construídos para torná-los também foco de questionamentos mais aprofundados. Por que desejamos isso? Para quê isso nos serve? Isso nos é irresistivelmente necessário? O que sustenta a existência disso enquanto produção humana? Pois as conseqüências possíveis do ato estão incluídas no ato mesmo. Com o intuito de abater o êxito destas investidas, os estabelecimentos se armam de subterfúgios legais e estruturais, todos eles respaldados levianamente pelo senso-comum. Cabe aos praticantes o contra-armamento diante disso, uma leitura despretensiosa do dia-a-dia a que podemos chamar de estratégia.

Algo marcante no cenário produtivo dos tempos atuais é a intensa dispensa de fontes materiais de vida em função da concepção prática do consumo formada durante séculos por significativa parte das sociedades contemporâneas. O século XX acabou por amalgamar na figura do consumidor um sujeito jurídico e social, portanto uma parte exigente e supostamente ativa em meio aos burburinhos do mercado. Simultâneo a isso, sua posição insatisfeita e ávida faz dele (o consumidor) substituinte obsessivo de “novidades”, como a mônada que, mergulhada numa perspectiva temporal única do mundo, deve estar consonante ao ritmo desse mundo sempre passível de ser “totalmente conhecido”. Por outro lado, a encruzilhada monetária só permite que esse mundo perversamente vasto se realize parcialmente. Por isso a avalanche de desperdícios, a dispensa em jorros de recursos ainda utilizáveis. Assim que a tecnocultura moderna concede parte do pódio aos tecnocratas de plantão, deve selecionar as morais de utilidade de seus produtos. Uma iniciativa outra de boicote é a que se aplica ao aproveitamento dessa avalanche: a idéia de lixo moderno é fácil de ser compreendida, embora apenas corresponda aos discursos consensuados sobre o que está ou não na crista da onda do consumo. Os mais sagazes chafurdam esses restos, mexem nos latões de lixo, aproveitam de modo criativo essa tralha que a sociedade consumista diz não desejar. Um exemplo: o legume encontrado num saco de lixo próximo a uma feira qualquer se diferencia dos legumes consumíveis por poucos motivos, dentre eles a trivialidade fabulosa que diz que a batata deve possuir formas exatamente arredondadas. As que não atendem a esse quesito são inteiramente dispensadas e ditas indesejadas, uma vez que de fato não são vendidas. Desse movimento das coisas, a aglomeração em massa de produtos cujo consumo deve ser imediato e cujos usos estipulados costumam ser efêmeros toma proporções escandalosas. As alternativas de reciclagem total raramente apontam soluções satisfatórias ou suficientes para a atual fase global de desperdício técnico-produtivo, já que não importa como ou o quanto é posto a disposição no cassino, há consumidores a postos e com renda (muito ou pouca) para adquirir o que for. Isso explica o porquê de se dizer por aí que o mundo é uma construção deliberadamente ideológica: se tecnologias “neutras” produzem e são produzidas por um curso de ações “neutras” e individualmente deslocadas, só podemos concluir que essa neutralidade e distanciamento são mais metafísicas que a própria metafísica. As medidas mais radicais voltam-se para fundar meios de produzir coletivamente boa parte do necessário à sobrevivência. Hortas urbanas, artesanatos, vivências em eco-vilas, ocupações de moradias, pirataria, um parasitismo ciente de si mesmo e voltado para a negação do tempo característico da economia mercantil. Mas “parasitismo” sobre o quê? A modernidade, mesmo que possa ficar momentaneamente distante, estende seus braços ao que for, soa seu canto desesperado para ouvidos desesperados. Pode-se fugir, manter afastamento o quanto puder, viver em montanhas ou cavernas ou buracos, sorver a vida simples, escapar aos ditames do que é, mas não por muito tempo: o moderno quer e precisa desembarcar onde quer que seja, sob a forma de sonhos ou campos de concentração, prazeres ou bombas de destruição em massa. Não aceita ser ignorado, mas sugere suas facetas destrutíveis, suas brechas abertas, seus estilhaços contínuos e praticáveis. No turbilhão de suas discrepâncias mais evidentes – e inversamente às expectativas comuns –, o poder separado não reage a esses desvios negando-os em definitivo: quando não os cria indiretamente como uma peça a mais no universo de escolhas vendáveis, recupera-os a seu favor sem fazer manuseio de cálculos escrupulosos.

A fórmula “trabalha-se para consumir” não é de todo simplesmente o repeteco de um axioma velhaco. Quem boicota por produtos específicos ou em dias simbólicos vai trabalhar no dia seguinte, ainda apreendendo a mediação abstrata posta entre o indivíduo e seus desejos como a “natureza das coisas” por si só. O trabalho alienado, ao contrário de ser decretação incondicional da sobrevivência no mundo, não passa de delegado do consumo, só pode existir como determinante e determinado dele, um círculo vicioso cujas interseções acabam por universalizar os uivos da sobrevivência, da pseudo-vida moribunda que sempre gangorra em fio tênue.

As iniciativas estratégicas de isenção parcial frente às regras mercantis – chamadas atualmente de freeganismo –, por mais que se coloquem como possibilidade de esquiva em relação ao trabalho, num oportunismo estratégico para poder continuar respirando no mundo, cria demanda perante a lógica do desperdício, justifica suas formas produtivas alienantes, mas ainda se desvia bruscamente dos meios de apropriação socialmente formalizados. A crítica da produção permanece ao relento, numa espécie de esquizofrenia sobrevivente. Nesse tomo singular, estamos a rir do fato de que não há nada de que se rir: o riso – tanto o riso da reconciliação quanto o riso do terror – acompanha sempre o instante em que o medo passa. Ele indica a liberação, seja do perigo físico, seja das garras da lógica. Funciona como meio forjado de fraudar a realização, a despeito de se dar sempre sobre piso prestes a ceder, a toda hora fadado a sofrer as rajadas da coerção quando menos se esperar.

Conclusão provisória: pelo retorno a espaços de exercício da crítica e do diálogo, ambos na sua dimensão eminentemente prática

O objetivo dessa proposta introdutória de reflexão sobre a questão do boicote é meramente servir como contribuição para uma crítica que se mostra, nos tempos presentes, extremamente necessária no ventre do debate anticapitalista contemporâneo. Afinal, por que fazer uma análise crítica do boicote justo no interior de um espaço que prima persistentemente pela exaltação pouco pensada do mesmo? Os limites práticos do que empreendemos são sempre muito maiores do que podemos hoje imaginar, sobretudo se ousarmos observar o quanto as iniciativas mais audaciosas contra o capitalismo vêm sendo, de um modo intenso e recorrente, capituladas na dança do lucro ou, de certa forma, tornadas estéreis quanto à sua efetividade negativa patente (ao passo que algumas tradições de negação há muito inseridas nessa guerra permanecem a repetir, com pitadas pesadas de ortodoxia, suas equações acabadas de leitura e prática do mundo). A adoção da tática boicotadora contém, sem dúvida, suas vantagens e utilidades diante das dinâmicas diárias praticadas, já apresentou eficiência em momentos específicos de nossa história, serve – não nego – como arma de certa importância para a afirmação de outros horizontes para a crítica da economia política do capitalismo. Mas a couraça mítica colocada após os processos do dia-a-dia, artimanha esta própria da razão mercantil, procedem de maneira singela, discreta, fazendo aparecer o trivial em sua superfície, em detrimento do impacto concreto do que construímos e reproduzimos durante e através de nossos laços mais comuns. Repensar esses modos de percepção do cotidiano, apontar suas falhas e leviandades para, a partir de então, firmar neste solo o confronto que já foi declarado há séculos mas que ainda passa continuamente por alterações circunstanciais na sua forma, mantém-se necessário. Muito do que discutíamos nos primeiros anos do século XXI está hoje, de modo geral, abafado nas arenas de nossos diálogos, quando não se encontra isolado ou desmanchado em lacunas de registros deixadas nesse curto período.

Reforçar a autonomia radical na vida urge. Entretanto, mesmo diante dos reclamos vindos desde a rebeldia de 1968 até a ocupação sem limites das ruas contra as reuniões de cúpulas financeiras a partir de 1999, a tendência atual das lutas pende para o fácil manejo da cooptação por parte de Estados e corporações que já apreenderam o recado: a falácia do “fim da história” não tem abrigo seguro, e as expressões que se esboçaram nos últimos tempos sob e contra o mercado e o Estado já evidenciam isso. Hoje mais especialmente, as iniciativas de caráter individual custosamente voltam as vistas para si próprias e só esporadicamente se ocupam com pormenores que as envolvem. Se a postura à qual visamos deve se ater à convocação do consumidor ético ou do que costumam chamar “estilo de vida”, é menosprezado o aspecto relacional intrínseco ao modo de produção que sustentamos, aspecto que desmantela a potencial totalidade subjetiva em nome da potência totalitária do mercado. Falta-nos (e muito) comunicarmos qualitativamente nossa prática teórica, diretamente de um a outro, reconhecermos o lugar de onde falamos, as muralhas que arranhamos, confirmar com mais apreço se realmente os que prezam pela vida anti-sobrevivente ainda não pereceram nos desenrolares recentes desta era. Carece, aliás, reconhecermos que exigimos tudo justamente por aspirarmos à compensação do que já foi esparramado de muitas outras subjetividades desejantes que correm por outras barricadas, surradas e esquecidas que foram pela subvida instituída. E isso não se reduz à definição passiva de qual produto consumir ou à contratuação de dias exclusivos de um calendário qualquer que devem ser suporte do ato contrário aos ecos da indústria globalitária. Há que ser ressaltado que se existe um lugar onde a tomada de consciência recobra seu valor como ação essencial, é no campo da vida cotidiana, em que cada momento revela mais uma vez que os dados são jogados e que, como de costume, estamos sendo ludibriados. Das rixas caseiras à guerra das ruas: o conflito, querendo ou não, está há muito anunciado, nutrindo-se do desejo de reapropriação irrestrita de cada fatia de vida que por enquanto não foi dizimada pelas rotinas atrofiadas do trabalho e do consumo. Como se diz, a vida é dura se queremos vivê-la.

O alerta que intentei fazer voltou-se para a propensão de muitas das investidas da autonomia serem laçadas pelos cifrões corporativos em casamento com as determinações da política fragmentária do Estado, sempre atentas a qualquer burburinho estourado para colocar o “sistema” em xeque. Quando não, essas investidas se contentam com a reprodução acrítica de discursos estabelecidos desde tempos remotos. Exemplos disso não faltam. A opção por agir no plano consumista gera, como condição necessária, a moldura do consumidor supostamente ativo, aquece as demandas do mercado e arca com o apaziguamento da ação radical contra tanto o que se nos apresenta e coíbe de imediato quanto o que se oculta e omite por trás de seus desenvolvimentos. Mas acho importante, contudo, deixar claro que o problema que levanto não está localizado na tônica desse tipo de ato, mas na suficiência normalmente atribuída a ele. Afora isso, sou ciente de que se mantém a construção dinâmica de qualquer coisa que possa se expressar no diferente, num possível diálogo prático sobre um novo percurso de “realidade” que desejamos fundar a cada momento.

Esse texto talvez possa contribuir como fomentador de mais um debate, das reflexões aptas a se encaixarem na sua modesta proposta, das re-significações e críticas a qualquer instante necessárias. De uma forma ou de outra, que ele sirva como pequena faísca para uma conversa fluida que pode se desencadear nas situações mesmas que inventamos, como uma tentativa de pensar nossas tempos e espaços, bem como o que é pensado e projetado sobre os mesmos.

24 de dezembro de 2008.


2 Comentários so far
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Este texto se insere em uma tradição de lutas anticapitalistas que se dá em Belo Horizonte. Mesmo não pensando em seu enraizamento como primeira tática, uma vez que a luta é global, essa tática é necessária uma vez que participa de um lastro de pólvora que nunca deixou de queimar. Espero que ela entre em crise e encontre seu barril e não os explosivos de TNT, pois a pólvora (mesmo que para a guerra) é uma criação humana, o TNT e outros explosivos é um produto do mercado.

Grande abraço;

EP

Comentário por EP

Fico satisfeito ao ver que pessoas como EP estão antenadas nos debates atuais a respeito das práticas que continuam emergindo contra o mercado e o Estado. Concordo com boa parte do que ele diz. Nossa guerra não coaduna com a guerra dos Estados e das corporações, sem dúvida. A tática de que necessitamos conta com alto grau de descontração e molejo, pois sobreviver continua a ser “tarefa” pesada, em vários aspectos.

Comentário por Afonso Guetto




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