Dia Sem Compras


Cidade Situada [informativo#4] – Porcos e furacões by D. Graça
junho 10, 2010, 5:50 pm
Filed under: Censura e Monitoramento, Cidades, Eventos, Repressão

Esse texto passa por aqui e resolvemos continuar a corrente. E, para facilitar a digestão, indico alguns links que poderiam orientar mais sobre o tema. Um deles é um release caprichado até demais, que tentou contar um pouco sobre as mobilizações que continuam contra os decretos de Lacerda e as missões higienistas da prefeitura de Belo Horizonte. O outro foi matéria publicada num jornal de grande circulação em BH, e inclui mini-entrevista com Fernando Cabral, secretário municipal da regional Centro-Sul.

Esses dois textos foram postados no blog Praça Livre, que tem sido atualizado com o vapor que está acessível, como veículo aberto de informação.

As “novidades” não surpreendem, como afirma o texto que estou lhes indicando mais abaixo. A Coca-Cola aluga BH radicalmente. A prefeitura dá de presente.

Segue o texto.

Desfrutar.

A. G.

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O olho no furacão

[ou A dialética dos porcos]

Janaete Kyra

“Um belo dia, a rua proclamou a excelente verdade: que as palavras leva-as o vento.” (João do Rio, A alma encantadora das ruas)

“(…) o termo ‘público’ significa o próprio mundo, na medida em que é comum a todos nós e diferente do lugar que nos cabe dentro dele.” (Hannah Arendt, A condição humana)

Muitos já devem estar sabendo das últimas “resoluções” em torno da sitiada Praça da Estação. Aliás, convenhamos que não cabe mais o termo, pois de “sitiada” hoje a praça não tem nada. Nos ditos de aluguel, deve-se pagar um mínimo de 9600 reais para a realização de “eventos culturais” ali, mas talvez esse nem seja realmente o ponto. Lembro-me de textos que correram por essas redes, que curiosamente narravam em etapas as pretensões que são hoje publicadas como projetos da PBH para a cidade. Vários alertas já repercutiam desde antes, esboçados em investidas similares, em São Paulo, Porto Alegre, Barcelona, Buenos Aires, e que no Rio de Janeiro assume a insígnia semi-fascista de Choque de Ordem. Falo desses que conheço, alguns à distância, outros na vivência dessas cidades. Vivo é o olho em Belo Horizonte… e viva também está a porcalhada.

Numa cronologia básica, a comédia de Márcio “El Cerdo” de Lacerda tinha um roteiro típico das novelas baratas, início meio e fim escritos em antecipado, num programa político oportuno, em tempos ótimos para realizar-se. Não é que a relação da atual gestão da PBH com as questões do Público seja tão-simplesmente “porca” – com todo o cuidado para não ofender o animal. Há contratos a serem cumpridos meticulosamente. Há um modelo de cidade formado e buscado, um padrão global com usos e desusos definidos, nas suas flexibilidades, nas suas efemeridades. E não só isso. Um padrão a ser ferrenhamente seguido, como modo de barganha nos espaços internacionais da política e nas grades turísticas mundiais. As cidades que adotam os parâmetros ditados vislumbram, invariavelmente, um retorno pouco durável, ainda que dure um só mandato político. Com isso quero dizer que a cidade inteira passa por um furacão de remodelagens que querem suprir um curto período de glórias para ínfimos grupelhos da sociedade. Por exemplo, todas as obras devem estar encerradas até 2014, só porque visam a atender especialmente (mas não apenas) à Copa, um evento de um mês, que capta muitos investimentos que vão escorrer imediatamente para fora da cidade, flutuar no financeiro especulativo.

Nesse sentido, uma política de decretos cai como luva nas mãos daqueles que, há tempos, têm a posse da caneta. Num primeiro momento, foram três:

Ato um (DECRETO Nº 13.792): definição de “evento”;

Ato dois (DECRETO Nº 13.798): decreto proibitivo dos eventos de qualquer natureza;

Ato três (DECRETO Nº 13.863): decreto conciliatório – institui comissão interna de regulamentação.

Depois, um desfecho incompleto:

Ato quatro (DECRETO N° 13.960): revogação do 13.798;

Ato cinco (DECRETO N° 13.961): ALUGUEL.

“Incompleto” por ter deixado de lado um detalhe importante, que seria a publicação dos pareceres da comissão instituída de dentro da prefeitura e composta somente por técnicos internos a ela. Supostamente, esses encaminhamentos saíram do prelo três dias antes do 2° Eventão (isso nos diz a data de sua publicação), quatro dias após o prazo de suas atividades expirar, em 1° de maio. Nessas regulamentações, um artigo e um inciso abrem as cercas da praça sitiada, para que a Coca-Cola ministre suas mega-festas da Copa, defendidas como festas exemplares, eventos de teste para 2014.

Art. 2°, inciso II: concede uma das licenças para realização de eventos na Praça da Estação:

“eventos inseridos nos programas da Copa das Confederações de 2013, da Copa do Mundo da FIFA de 2014, nos termos do contrato celebrado entre o Município de Belo Horizonte, o Comitê Organizador Local e a Fédération Internacionale de Football Association – FIFA, além daqueles considerados, a juízo do Município, como preparatórios para esses eventos”.

[Primeira melada: os parâmetros de evento exemplar só poderiam mesmo ser bancados por uma grande corporação da alçada da Coca, basta observarmos no tamanho da infra-estrutura. Segunda cagada: os eventos de teste instalam bilheteria e área VIP, para deleite de um número controlado de consumidores.]

Não espanta a cada passo. Basta levarmos em consideração que não somente a Copa de 2014 está sendo produzida nessas entrelinhas, mas sobretudo uma limpeza geral que já completa 5 anos, e que está se movendo pela cidade em ritmos por enquanto discretos. Nem tão discretos, verdade. As obras da Av. Antônio Carlos ainda estão em andamento, mas pretende-se que ela se alongue mais, até passar por cima das comunidades da Vila UFMG. Outras intervenções em breve se iniciam, e o foco é o Barreiro, parte do bairro Betânia, et cetera.

Durante todo o jogo coberto de véus, a PBH se isentou de todas as possibilidades de discutir frente a frente com quem lhe exigia algum parecer. Uma variável extensa de nomeações podem classificar esse “quem”: multidão, movimento, sociedade civil, moradores, banhistas enfim, melhor não aprofundarmos nessas pegadinhas. Como costuma ser, longe de revelarem qualquer abertura, políticos fazem política, pensam seu terreno de ação e elaboram suas primeiras ofertas com muita conveniência. É como fazem os pais desesperados para calar a boca da criança maltratada: dá-lhe algo doce, aja com faro, entenda o que a criatura quer. E a PBH, sempre que se pronunciou (muitas vezes por meio de seus decretos), deixou escapar um hálito parecido ao de muitas ditaduras, ou ao que têm as pessoas que pensam pouco sobre a carga das palavras durante uma declaração pública – ou sexual, ou bélica, que seja.

Quando Fernando Cabral diz que não se deve “abrir mão do papel de governar”, ele expõe nada mais que a sua impaciência diante das discussões próprias (que dizem ser próprias) à esfera pública. Confirma que a atual gestão da prefeitura opta pela mão-de-ferro, não reconhece – ou desconhece – as tramas que a elegeram, e pensa a cidade como quintal de suas expropriações. Ignora que cada pronunciamento fora de tópico excede e torna o jogo ainda mais obsceno. E revela a plataforma de seu jogo, do jogo unilateral que resolveu jogar. Pois  não se deve ouvir nem falar a ninguém: debater e trocar conversas na praça pública é coisa de grego.

É ilustrativo o modo como o piso da praça preocupa tanto as partes do Museu de Artes e Ofícios e da PBH: isso só simboliza o quanto aquela praça milionária foi reconstruída (e não “revitalizada”) para não ser tocada; seu chão não pode suportar o peso do mundo, pode se estilhaçar.


2 Comentários so far
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