Dia Sem Compras


Roteiro: a cidade e os flashmobs by D. Graça
setembro 13, 2011, 1:05 am
Filed under: Cidades, Movimentos de resistência | Tags: , , , ,

por PABLO GOBIRA

1968, Europa. Talvez seja necessário dizer “França, Paris”, mês de maio. Tal como um texto, esse cenário cita o 1871 francês, da Comuna de Paris, hoje com seus 140 anos. Ambos idosos. Ruas fechadas, barricadas. O que têm em comum? Cenário: cidades.

1999, Estados Unidos da América. Mais especificamente: Seattle. 30 de novembro. Uma bomba de efeito moral explode. Alguém chora de susto e pelos gases de pimenta e lacrimogêneo. Cheire esses gases e experimente para entender. Não. Imagine. Deseje o impossível: imagine que conhece o cheiro do gás de pimenta. Ruas fechadas. Veja os filmes Showdown in Seattle (dirigido pelo Indymedia) e Battle in Seattle (dirigido por Stuart Townsend).

1998-2001, todo o mundo se torna palco de intervenções variadas. Autoconvocadas pela Ação Global dos Povos (AGP), as pessoas se solidarizam com a negação do capitalismo em vários locais do planeta. FMI, Banco Mundial, o grupo dos países ricos, a Organização Mundial do Comércio se reúnem, os da AGP também, mas para atrapalhá-los. Uns chatos! Alguns criticam isso como uma especialização das manifestações. Outros criticam como ações separadas do cotidiano. Milhões de pessoas solidarizadas contra o capitalismo em centenas de países no mundo. (É isso mesmo? Será que essa conta está certa?) Concretamente a maioria das ações – coloridas, lúdicas, divertidas – interagem com o espaço urbano. Vidros de estabelecimentos são quebrados, paredes são pixadas, asfaltos são rabiscados, ruas são transformadas em passeios. Ruas como o fim do caminho do meio.

2001, 11 de setembro. Silêncio. Caça às bruxas. Manifestação do estado de exceção. Tempo de vida suspenso. Tédio. Frustração. Apenas a mercadoria pura e simples pode circular. As mercadorias tensas, que querem se expressar, não podem se solidarizar. O tempo se solidariza com o silêncio. O silêncio vira método e meta do grito. A meta é o mesmo.

2002, começa um tsunami de protestos. Todos queriam se manifestar. Contra a Guerra do Iraque, contra a invasão ao Afeganistão, contra o silêncio. Cria-se o Fórum Social Mundial, o primeiro lugar onde se podia quebrar, pixar, virar um carro da polícia sem ser preso, o primeiro lugar onde se podia atingir a propriedade privada sem ser penalizado. Todos são contra… contra… contra. Ninguém parece “anti” ou “arqui”.

2002, todos queriam que o século XXI tomasse forma. A única forma foi a pausa. As pessoas começaram a fazer protestos sobre tudo e qualquer coisa. Há essa possibilidade. O estado de exceção ensaia uma paródia do estado de direito. Todos têm a liberdade de se organizar via Internet, é mais fácil, mais rápido. Supimpa! Convocatórias são criadas, feitas, protestos tomam forma, acabam-se, pronto.

2002, da quantidade e multiplicidade de enfoques dos protestos, surge o Flashmob como mania.

2002, flashmobs (flash + mobilization) são herdeiros dos happenings (já secular), da blitzkrieg (já oitentona), da situação (já cinquentona) e da Zona Autônoma Temporária (quase trintona), mas apenas como paródia. 1968 ensinou: “não confie em ninguém com mais de trinta”.

2002, as cidades viram escolas de resistência contra – advinhem?! – a cidade. Na cidade se mobilizam contra os carros, contra o ir e vir da mercadoria, contra as roupas, contra o trabalho, contra o controle dos corpos, do gênero, da cultura, do futebol, contra… contra… contra. Logo começam as mobilizações a favor da bicicleta, das sacolas retornáveis de tecido para carregar as compras, a favor do meio ambiente.

2002, todos podem, pelas redes sociais, marcar seu protesto. Um protesto é fruto de uma corrente, forma herdada daquelas cartas que recebíamos em nossas casas há alguns anos.

2002, quem encontrar esta corrente de Nossa Senhora deve fazer 4 cópias por dia durante 60 dias e tudo o que pedires será atendido. Seis donos de um restaurante precisavam de 500 mil reais e conseguiram antes de 60 dias. Os donos de um mercado perderam tudo o que tinham porque quebraram esta corrente. Faça 4 cópias por dia durante 60 dias e publique. Faça seu desejo!

2002, faça seu panfleto com o modelo em anexo e encontre-nos na praça 7 de setembro no dia 22 de março de 2002 para se manifestar contra…

2002, o que ainda é moda e mania logo será substituído por algo menos tedioso. O protesto tedioso é substituído pelo que será frustrante. Sempre teremos novas cores para novas formas de protestar. Algum deles talvez vingue.

2002, a queda dos ditadores no norte da África é considerado pela mídia mundial um flashmob. Flashmob é uma corrente nas redes sociais de Internet que dá certo. As pessoas vão divulgando, passando a mensagem, confirmando presença e estamos prontos para mais um protesto. Poucas pessoas ficam sabendo e as que sabem acabam indo, muitas vezes porque não têm algo mais interessante para fazer. Vira algo muito mais pontual, temporário, que acaba sendo deixado pra lá quando acaba. Semelhante a um passatempo que deixa resquícios na memória do participante.

2002, o protesto permitido e o flashmob (marcado pela Internet) não correspondem aos crimes sociais, perdem o parentesco com o maio de 1968 e as ações anticapitalistas da virada do século XX para o XXI. A cidade pede possibilidade e não permissão.

2002, todas essas ações contagiam pessoas em diversos setores da sociedade: universidades, tribunais, fábricas. O risco diminui, pode-se protestar, pois tudo deixou de comunicar, a radicalidade se espacializou em dispersão. Protestos contra a privatização de praças, a favor da ocupação de lugares públicos, contra a mudança de comunidades de seus lugares tradicionais, contra a copa, contra as olimpíadas e seus impactos. Tudo esparso e absoluto, mas não mais aqui e em outros lugares. Apenas aqui. Aqui se faz, aqui se paga. Chega ao absurdo da possibilidade: uma lei de incentivo a cultura financia um show contra a privatização das praças da cidade. Cidade contemporânea.

2002, último avanço. A marcha das vagabundas. Os mesmos que estavam no protesto de ontem estão no de hoje. Os mesmos 100, 200, 1000, não importa. Os mesmos separados, isolados, mobilizados por redes sociais. Apenas pelas redes sociais. A cidade põe um ponto e dá um basta. Cinto de castidade.

2002, a mídia repete que foi a Internet que tornou capaz tais articulações, da marcha das vagabas até a queda das ditaduras no norte da África.

2002, os protestos se tornam flashmob deixando de ser um crime social para se tornar uma ação social a favor da reforma da cidade. A cidade precisa de obras materiais e imateriais.

2002, os protestos são um lugar de diversão que ampliam o espaço virtual de convocação pela convocação iniciado nas redes sociais. Aparentam ser tão vazios de sentido quanto os seus locais de execução após a diversão. Parece fácil ser horizontal em um parque de diversões e em uma mesa de bar.

2002, cena final: o protagonista perde o fôlego, mas logo se anima novamente, pois sabe que quanto mais protestam, melhor.


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