Dia Sem Compras


Divagante:: [Devaneios] Ciclos desintegrados by D. Graça
março 18, 2012, 1:53 pm
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“Voltar… voltar é vertigem!”

Faz tempo que aprendi que nunca há volta, que toda situação é uma situação sem retorno. É por isso mesmo que desacreditei, quando ainda era moleque, de qualquer possibilidade de revolução que não for cotidiana – esse estado de transformação que nunca é percebido enquanto está sendo feito e que sempre passa deixando frestas e escombros de uma era passada. Para muitos astrólogos de séculos atrás, esta palavra – “revolução” – significava retorno a um estado de equilíbrio, que seria a revelação de alguma natureza de ser das coisas, estável. Não existe volta… o que fazemos é simplesmente continuar dando voltas, dando passos e refazendo nossos sintomas de estar vivxs ou de estar mortxs ou de viver tão-somente. Enquanto a vida é ainda uma possibilidade… enquanto a vida ainda vale a pena por suas surpresas miúdas. Quando eu quiser cair, vou cair, vou me jogar – não dá pra desistir no meio dessa escolha, ao se jogar a queda e o baque são inevitáveis. A vertigem é mais ou menos isso: desistir e se arrepender quando a queda já não pode ser desfeita – “o medo da queda, a voz do vazio debaixo de nós”.

Solidão, um mar sem fim

Voltei a visitar abismos e a sentir meus passos me guiando sem interrupção até eles. Vi mais mares revoltados, fazendo estrondos bem no fundo de cada sentido meu. Sinto vir dali um um apelo desesperado e desesperançado, que é o eco que responde aos gritos do meu íntimo, repetindo contra mim as mesmas perguntas, me obrigando a dar a elas as minhas próprias respostas. Quando percebi, eu tinha calor, não sentia mais o frio e me movimentava mais leve e suave, pois vejo que depois de cada golpe não perco a capacidade de questionar e me fazer questões. Ainda vivo… Escolhi o deserto como exílio para acalmar o coração.

Lembrar é ser visto

Me atormentei de lembranças até ver que elas me animam e conectam cada parte de mim a tudo que desejo, tudo que amo. Se não fosse isso, sem dúvida eu já estaria aniquilado. Porque todas as novas minúcias que eu desvendo me convencem de que tenho novos presentes a dar para aquelxs com os quais quero estar. Tu és parte disso, pois em cada descoberta minha, em cada novo mundo que crio, abro e visito, encontro parte do que aprendi contigo e outrxs. Por vezes, sinto alguém… muitas vezes me deixo levar pelo vento, pelo que o vento me diz.

Sobre lembranças e distâncias

Na medida em que passa o tempo, sinto menos. Minha memória trabalha bem, mas tenho problemas em cultivar o que não existe materialmente e agora. Distância e ausência. Os cheiros e sensações ficam cada vez mais abstratos, se tornam poesia de puro pensamento. Parece tudo ilusão da minha cabeça… sonhos mal recordados… invenções minhas. Onde você está?

Estranhar um novo velho lugar

Curto aproveitar esse lugar de forasteiro e não ter compromissos com histórias que ficam se contorcendo dentro de mim. Acho agradável poder ser qualquer coisa, porque não sou nada nem ninguém nessas situações, só um estranho. Não há espécie mais domesticável que o bicho-homem. Nos adaptamos a qualquer repetição medíocre. Por ser tão pouco, por saber tão pouco sobre tão poucas coisas, muitas vezes prefiro, em vez de ser, estar. Pois ser… “ser não é ser visto”.

Processos desérticos

Me senti atropelado por tantos desses processos e momentos frágeis. Não sei onde estou, se tenho algum objetivo com minhas caminhadas. Não sei se ainda estou no deserto, se já saí. Há momentos em que não sinto falta de nada, em que não sou nada nem ninguém, em que posso atender por qualquer nome. (Eu já lhe escrevi sobre isso, sobre como eu lido com a condição de forasteiro.) Tento manter a firmeza de meus atos, pra não ser esmagado por esse atropelo que é, às vezes, estar vazio demais.

Toque de faísca

Vamos nos encontrar a qualquer hora (mesmo que isso demore anos pra acontecer). É o nosso fluxo indecifrável e inevitável. Com mais fibras nas asas, mais destreza no vôo, mais dureza na queda, no baque contra o chão. Mais faísca, mais fogo e calor a espalhar – antes da penumbra em nossos corpos.


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